A Excursão

O café da manhã estava incluído na diária. Não era farto, mas o bufê tinha suco de laranja, pão quentinho, manteiga, geleia de morango ou de laranja, que ali chamavam de marmelada, e alguns queijos. Niva pediu un café au lait, s’il vous plaît e curtiu ser uma das poucas hóspedes no refeitório. Gostava de acordar cedo desde que saiu da casa dos pais e foi, recém-casada, viver na fazenda do marido. De manhã conseguia pensar melhor.

A vida na fazenda era história, tão antiga quanto muitos dos monumentos parisienses. Terminou de comer. Subiu para escovar os dentes. Pegou sua bolsa e o mapa impresso para passar o dia flanando pelas ruas dos 6º e 7º arrondissements. Ao passar pela recepção, viu aquele senhor chileno que fazia parte do grupo descendo para o refeitório e pensou que, apesar de terem idades próximas, era mais lépida. Fazia sol em Paris. Niva sentia-se realizada.

A viagem foi um presente das filhas. Com medo de que a mãe se perdesse no mundo e sem paciência ou tempo de irem junto com ela, compraram um pacote. Colocaram Niva aos cuidados de um guia que falava espanhol em um grupo de turistas latino-americanos. Niva havia sonhado em conhecer Paris desde quando era galanteada pelo marido nas festinhas do Rotary Club. Lia livros, devorava revistas, mas acabou no interior do Paraná, onde Ênio plantava café e Niva seria sua esposa-criada. Quando já tinham uma vida mais confortável e as filhas moravam na cidade, ela falou em viajar. Ênio achava um desperdício cruzar meio mundo para chegar num lugar onde ele não conhecia ninguém. Além do mais, com o dinheiro de uma viagem, poderia comprar dezenas de novilhas para os pastos que haviam substituído o cafezal.

“Paris Romântica” era o nome do pacote e Niva teria cinco dias na cidade, com visitas guiadas e tempo livre para atividades independentes. Romântico teria sido caminhar por Paris quando ainda era jovem e apaixonada pelo marido. Sozinha, na idade das prioridades por lei, ela via a viagem como um prêmio de consolação. Mas a cidade era linda, havia flores nos jardins e as vitrines enchiam seus olhos. Os parisienses eram charmosos e até simpáticos. Ela cumprimentava todos com um sorriso e um bonjour. Ficava impressionada com as mulheres, que mesmo com rugas na cara, usavam lenços bem posicionados e tinham atitude. Era um lugar muito chique, pensou Niva.

Seguiu as dicas de sua velha amiga Alzira, que conhecia Paris na palma da mão. Engraçado que para Niva, todas as suas amigas eram velhas. Deixou o grupo seguir o itinerário de museus, igrejas e palácios. Não queria perder tempo em filas prestando atenção em informações que esqueceria antes do jantar. Dividiu o mapa em cinco áreas e dedicou um dia para cada uma. Ela não queria perder nada. Circulou os lugares que lhe vinham à memória literária, o Palais Royal, onde Napoleão passou suas primeiras noites na cidade, a Place des Vosges, onde viveu Victor Hugo, a igreja Saint Sulpice, por ser perto de onde morava Catherine Deneuve. Era sua fã.

Almoçava sanduíches de queijo e presunto e crepes de nutella com banana. Tinha vergonha de se sentar sozinha num bistrô. Das seis palavras que sabia em francês, nenhuma constava nos cardápios dos restaurantes. Melhor sorrir, dizer bonjour e apontar para o que parecia gostoso. Era também mais barato. Quando estava exausta, pegava um táxi para o hotel, passava no mercadinho ao lado, comprava algumas frutas e água Perrier e sentava na janela do quarto para escrever sobre o dia e planejar o seguinte. Queria voltar para casa e impressionar as filhas com suas histórias.

No último dia, Niva subiu até Montmartre. Na fila do funicular encontrou o senhor chileno do grupo. Tentou fingir que não tinha visto, mas foi impossível. Ele era simpático e veio imediatamente conversar com ela. Contou que o grupo tinha ido para Versalhes, que ele já conhecia o palácio e queria ter um dia para sentir-se independente outra vez. Seu lugar favorito era a praça ao lado da catedral do Sagrado Coração onde tinha um restaurante que servia os melhores escargots da cidade. Niva ficou impressionada com o savoir do senhor, que se chamava Enrique, e aceitou o convite para almoçarem juntos porque teve vergonha de dizer não.

Estava um pouco nervosa. Queria parecer agradável, interessante, educada, culta. Enrique não era bonito, mas era bom de papo e provou ser ótima companhia. Falaram sobre as impressões de Paris e ele ficou impressionado com as caminhadas de Niva. Ele gostava dos museus. Sim, tinha preguiça de tanta gente, mas emocionava-se em frente a pinturas clássicas ou artefatos persas. Já tinha visitado Paris algumas vezes a trabalho. Tinha uma vinícola e participava de feiras de vinhos. Agora quem cuidava dos negócios era o filho e ele podia fazer suas viagens. A propósito, vamos pedir uma garrafa de tinto, sugeriu Enrique.

Aquele almoço foi o melhor da viagem. Teve entrada, parto principal e sobremesa. Teve vinho e licor. Teve risadas e confissões. Niva estava nas nuvens e pensou que poderia ter sido simpática com Enrique desde que chegaram ao aeroporto, cinco dias atrás. Já não estava sob o domínio do marido, ou melhor, ex-marido há poucos anos. Quando lembrou desse detalhe, e de que Ênio namorava outra mulher, Niva ficou mais solta, mais sorridente. Não por vingança matrimonial. Ela queria apenas ser elogiada, se achar bonita, francesa.

Foi na euforia etílica do fim de tarde parisiense que Enrique pegou na sua mão enquanto caminhavam de volta ao hotel. Disse que era para ela não resbalar nos paralelepípedos. Niva agradeceu o almoço, a conversa e a caminhada quando chegaram no corredor do terceiro andar do hotel. Enrique falou que o dia tinha sido um prazer. Sentiam-se quase adolescentes, sem saber se levar algo adiante ou se cortar com um boa noite, até amanhã. Optaram pelo boa noite. Tinham malas para arrumar, postais para escrever e um pudor protestante.

O traslado para o aeroporto era de manhã cedo. Encontraram-se meio encabulados no café da manhã e se sentaram juntos. Enrique entregou uma carta para Niva ler quando chegasse ao Brasil e cochichou algo em sua orelha que a ruborizou e a fez pensar naquilo durante as doze horas pelo Atlântico. Nenhuma das filhas foi esperar Niva no aeroporto. Pegou um táxi. Leu no trajeto a carta de Enrique. Perdia o fôlego a cada parágrafo. Na frente de casa entendeu que não era mais a mulher que saiu dali há alguns dias. Tinha agora uma promessa, com vista para o Oceano Pacífico, do outro lado dos Andes.

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