Andarilho

?? Tinha se mudado há alguns dias para uma das lâmpadas do teto da sala de estar. Viver ali era como estar no convés de uma nave espacial: um espaço côncavo envidraçado, uma cabine de comando. Só que ao contrário de uma espaçonave, a lâmpada não mudava de lugar. Mesmo assim, ele gostava de poder observar o movimento das pessoas na sala e poder escutar as conversas. Notou que um dos filhos do casal já estava ficando calvo e pegou a filha tirando uma nota de cem reais da carteira da mãe na tarde passada.

Não era um lugar tão cômodo quanto a caixa de fósforos de onde tinha vindo. O espaço era maior, só que a curvatura do vidro restringia sua mobilidade. A cada tentativa de escalar as paredes côncavas para se dependurar no filamento de cobre, escorregava para o centro daquela abóbada invertida. Fazia frio durante boa parte do dia visto que o vidro não é dos melhores isolantes térmicos. Irritava-se com os sons que reverberavam em ecos, principalmente o latido agudo do cachorrinho insuportável e o barulho do salto alto da filha batedora de carteira no chão de taco. Quando anoitecia e a energia elétrica era liberada, mais desconfortável que o calor era a claridade. Por isso ele usava os tapa-olhos que trouxera de uma viagem de avião e deitava imóvel em cima da esteira de palha, para não queimar os pés nem as costas. Conseguia distinguir no meio da sala um pontinho minúsculo que era a sua sombra.

Sabia que a única maneira de se mudar dali seria no dia em que a lâmpada queimasse. Ao ser desenroscada e jogada no lixo, dentro de um pacote de papel, ele teria poucos segundos para, num movimento ágil, desviar dos cacos de vidro. O saco de papel começaria a ficar úmido e mal-cheiroso com o lixo ao redor. Lâmpadas não são recicláveis e perderia a chance de vários receptáculos interessantes no pacote da coleta seletiva. Infelizmente iria para um lugar fedido, com cascas de fruta, pó de café, ossos de frango e guardanapos usados. Mas ele era otimista. Sabia que nos lixões sempre há gente fuçando por comida. Não só gente, como também ratos, cachorros e urubus. 

Se um rato o abocanhasse, vestiria sua roupa de mergulho para se proteger dos sucos gástricos do bicho. Ruim não seria. Ratos se propagam nos mais improváveis lugares. Já tinha visto alguns dentro de uma televisão antiga – as atuais eram finas demais – e até mesmo em dutos de ar-condicionado. Assim que fosse expelido do bicho, buscaria um lugar onde houvesse um vaso. Lâmpadas nunca mais. Num belo vaso de orquídeas poderia estabelecer-se por um longo prazo, criar raízes e viver de sombra e água fresca.

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