Aula de Ioga

🇧🇷Na semana número três do que tornou-se uma quarentena interminável, depois de ter bebido vinho todos os dias, de ter assistido a séries sem parar e de ter acordado sempre depois do meio-dia, decidi que não poderia seguir assim. Mesmo no purgatório existencial é preciso ter certa disciplina, minha consciência suplicava. Quem sabe era essa a oportunidade que eu vinha esperando para finalmente começar a fazer ioga.

Quando a vida era normal, anotava na agenda com certa frequência “aulas de ioga”. Cheguei a visitar um desses centros de meditação de tons pastéis e cheiro de sândalo, mas ao ver alguns alunos de ponta-cabeça entoando namastês, fiquei envergonhado de mim mesmo por antecipação. Sou desastrado. Iria machucar os companheiros de aula, torcer o pescoço, ficar paralítico, sei lá.

Agora, em casa, sem a pressão alheia e com a flexibilidade de fazer aulas entre o sofá e o televisor, de pijama, despenteado e na hora em que melhor me conviesse, me inscrevi num aplicativo lacrador. Era mais ou menos isso que prometiam os posts que desfilavam frequentemente no meu feed do Instagram. O algoritmo sabe dos meus desejos antes do que eu, me parece.

Primeira aula. Fechei as cortinas, tirei as meias, estendi uma toalha de banho no chão, respirei fundo e cliquei no ícone do aplicativo. Um cara sarado, com um short de lycra e um coque na cabeça me deu as boas vindas. Oi, disse eu para ele, sabendo que conversar com o celular não é normal, mas ok, vamos lá. Começamos respirando, sentados sobre as pernas. Inspiração, um, dois, três. Expiração, quatro, cinco, seis. Fizemos a posição do feto, me deu sede. Pausei a aula para ir beber um copo d’água. Voltei rapidinho.

A saudação ao sol me pareceu fácil. Não consegui tocar os meus dedos do pé sem dobrar (e muito) os joelhos. Meu já amigo digital me reconfortou. Falou que com práticas regulares, em breve estaria craque. Ufa. Gostei do movimento. Achei dinâmico. Fizemos três vezes e foi o suficiente para eu perder o fôlego. Eu suava de leve. Dei mais uma pausa, agora para checar meus emails no celular.

Quando voltei, o aplicativo tinha se fechado. Tive que começar tudo outra vez. Oi, respira, feto, saudação ao sol, sete, oito, nove. De repente  toca a campainha. Quase morri de susto. Gente, é quarentena, quem vem bater à minha porta nessa situação? Era o zelador, mascarado, trazendo o boleto do condomínio. Fui atrás da minha máscara e de uma camiseta. Já vou Sr Arnaldo, peraí! Tudo em ordem? Tudo em ordem, obrigado. Peguei a caneta, assinei na linha pontilhada, agradeci a gentileza. Até logo. Se cuide. Fui para o tanque da lavanderia onde montei a estação de desinfecção para lavar as mãos, afinal, aquela caneta deve ter rodado o condomínio.

Recomecei a aula. Namastê, respira, feto. Quando fomos, novamente, para as saudações ao sol, já estava cansado, com vontade de ler um livro, escutar bossa nova, beber uma, mas só uma, taça de vinho tinto. Amanhã eu começo a ioga outra vez, prometo.

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