Bom dia, Vietnã!

🇧🇷 Agora que viajar tornou-se praticamente impossível, virei um romântico. Degusto cada memória com a calma de beber um vinho raro. A cada fronteira que fecha, abro um álbum de fotos diferente. Passei a usar nomes antigos para lugares atuais. Para que contar da minha viagem ao Vietnã se podemos chamá-lo de Indochina? Ou descrever os sabores que degustei durante a curta parada na Tailândia, quando Sião soa muito mais exótico? De um lado um reino, com um novo herdeiro no trono. Do outro, um país comunista, funcionando a todo o vapor. Os dois são países de gente adorável, educada e receptiva. A comida, mesmo na rua, é sensacional e a história se funde entre presente e passado (se bem que isso acontece em todos os lugares).

Pois bem, há pouco mais de um mês, quando o mundo ainda era do jeito que a gente conhecia, fui à Indochina, passando pelo Sião. Bangkok, Hoi An, Hue e Hanoi foram as cidades do itinerário, que fiz junto com uma amiga. Ainda paramos por 24 horas em Addis Abeba, na Abissínia (vulgo Etiópia) por causa da companhia aérea escolhida. O trajeto dessas viagens sempre é muito longo, por isso uma parada estratégica para descansar a bunda numa cama de hotel, com banho gostoso e room service sempre faz bem. No caso de Addis Abeba, tivemos tempo de ir visitar nossa parente australopitecus Lucy, mãe de todos, no Museu Nacional Etíope e de tomar um café espresso no Tomoka (sabia que o café é originário dali?).

Bangkok é uma loucura, e mesmo com os primeiros sinais de covid-19 aparecendo, a vida seguia normalmente (eram apenas 14 casos naquela época). Jantamos no Bo.lan (que fazia anos que tentava reserva), visitamos o Museu de Arte Contemporânea (onde me encontrei com Salvador Dalí) e também um centro comercial novinho em folha, o IconSiam, na margem direita do Chao Phraya, sem contar os templos e palácios siameses. Não sei se minha companheira de viagem ficou mais impressionada com os budas gigantes ou com os shoppings luxuriantes. Só sei que da comida de rua ela gostou, pois comemos vários padthais e manga com coco debruçados em mesinhas plásticas na calçada (para compensar o furo no cartão do Bo.lan – veja Chef’s Table no Netflix para saber porquê).

Vista panorâmica de uma das sacadas do shopping IconSiam, em Bangkok.

Esse cara não sabe pintar direito!!! Meu encontro com Salvador Dalí no Museu de Arte Contemporânea de Bangkok.

Vicente em frente ao Paraíso, no Museu de Arte Contemporânea de Bangkok.

Num piscar de olhos e algumas horas de insônia (Bangkok está 10 horas na frente do Brasil), embarcamos na Bangkok Airways para Da Nang, onde um táxi nos esperava para os 40 minutos até Hoi An. Chamou a atenção a limpeza e organização das ruas vietnamitas. Nos hospedamos em um resort qualquer na beira da praia, que oferecia preço bom e café da manhã incluído. O objetivo ali era desligar do mundo. Mas desligar do mundo numa cidade tão charmosa quanto Hoi An foi bem difícil. Eu ia usar a palavra bibelô para descrever o lugar, mas acho bibelô mais coisa de velho do que coisa romântica.

A cidade bibelô de Hoi An no Vietnã.

Hoi An é tudo o que um lugar cartão-postal tem que ser. Tem casas coloridas (grande parte amarelas), lanternas e bandeirinhas pelas ruas, canais com barquinhos, senhoras de chapéu típico, arrozais, lojinhas de porcelana, de seda, de café e de medicina chinesa. A única coisa que faltava eram os chineses, que estavam proibidos de visitar o país devido ao covid-19, que naquela época remota de Fevereiro de 2020, estava restrito à China. Fizemos massagem, comemos muitíssimo bem. A culinária vietnamita me parece mais fresca e natural do que a tailandesa, apesar de eu gostar das duas igualmente. Fomos a uma biboca na frente do hotel onde ao pedirmos uma salada de papaia verde, o chef colheu o papaia na hora. Para o suco de maracujá, vimos as frutas frescas serem cortadas. Por menos de 5 dólares comemos maravilhosamente bem e ainda nos mostraram um cantor brasileiro que faz música cover no YouTube de artistas locais. O café do país também é fora de série, desculpa Etiópia. Só não gosto quando adicionam leite condensado. Navegamos pelos canais, tomamos sol e até ficamos jogados na praia por algumas horas também.

Fazendo pose de galã em frente ao atracadouro de Hoi An, em busca de um barco.

Barco encontrado, com senhorinha típica para remar e tudo.

Óin! Que fofura de cidade! Hoi An, Vietnã.

Dois dias depois foi de trem que chegamos a Hue, a antiga capital da Indochina, antes de Saigon e Hanoi se tornarem capitais do Vietnã do Sul e do Norte, respectivamente. Hoje Saigon é chamada de Ho Chi Minh City, mas o código do aeroporto ainda é SGN. Outra curiosidade é que a região sul do país se chamava Cochinchina (é para lá que você mandava as pessoas na sua infância, lembra?). Mas voltemos ao trem. Adoro viajar de trem. Não há nada mais romântico do que serpentear mundo afora sobre trilhos e ver o mundo passar pela janela. As ferrovias geralmente passam por áreas inacessíveis às rodovias e o ritmo é completamente diferente. Minha amiga estava um pouco tensa, achando que seria um trem com patos e galinhas, mas pegamos um compartimento com camas para seis pessoas e só fomos nós dois.

Tira uma foto pra mim, Tetê, bem natural, por favor!

A viagem foi curta. São três horas para fazer 100 quilômetros à beira mar. Mas as vistas valeram cada segundo. Eu passei a maior parte do tempo em pé na janela que tinha vista para o Pacífico. Sentei somente quando cruzamos uma floresta tropical. Foi lindo, inesquecível. Chegando em Hue fomos para o hotel Indochine Palace, que parecia um templo grego com chantilly e estava bem vazio. Dava para ver que o turismo já estava sendo fortemente impactado por ali. Um motoqueiro me achou bonito e queria me levar para dar uma volta. Fiquei com vergonha e não fui. Depois me arrependi, mas já era tarde demais.

Óóóó! Vista linda 1

Uáu! Vista linda 2!

Hue é uma cidade grande, movimentada, que tem uma parte moderna e, do outro lado do Rio Perfume, a cidade antiga, que lembra uma mini-Pequim. Tem coisa mais romântica do que uma cidade histórica com um rio chamado Perfume? Nas montanhas ao redor, há tumbas de imperadores que mais lembram os sarcófagos egípcios do que o cemitério da Recoleta. Fazia bastante calor e cedemos ao charme explorador de andar de riquixá puxado por um senhor mais velho. Ainda bem que sou magro. Ele nos levou passear por toda a cidade antiga, que tem museus, palácios e jardins. Vimos o fim da tarde na varanda do café do Hôtel Morin, construído pelos franceses, que tomaram conta da Indochina antes de chegarem os japoneses e depois os americanos e de tudo explodir.

Telhados de Hue.

Tem remédio pro corona, por favor?

O Palácio Imperial de Hue é enorme e somente uma parte foi reconstruída depois da guerra americana, como os vietnamitas chamam a guerra do Vietnã. Confesso que eu sabia muito pouco da história local além do domínio francês e da guerra contra os EUA. Mas a riqueza dos edifícios e jardins atesta a complexidade e diversidade do que foi o Império do Viet-Nam. Talvez mais do que o palácio, são as tumbas reais que impressionam. Elas ficam fora da cidade, em meio à luxuriante floresta. Visitamos apenas uma e ficamos impressionados. Uma enorme escadaria leva a um pátio com estátuas de guerreiros de pedra, que protegem a tumba central, que mais parece coisa do Vaticano, de tão elaborada a decoração. Sentado ali no meio, o Imperador esculpido em mármore. Se não existe vida eterna nem para ele, imagina para nós. Fazia um calor e eu resolvi usar máscara naquele dia, já de medo de pegar algum vírus dos outros turistas no local. Minha amiga tirou sarro de mim e só de birra eu não tirei a máscara, mesmo com o calor senegalês que fez naquela tarde. Sou meio mula de vez em quando.

Um detalhe na Cidade Imperial de Hue.

Portas vermelhas, sinal de prosperidade!

Maria Teresa, vulgo Tetê, brincando de ser estátua de pedra vietnamita.

Vicente, o amigão, de máscara cirúrgica incomodando “pacas”.

Aeroporto de Hue. Não só eu, mas boa parte dos passageiros do voo de Hue para Hanoi estava de máscara, bem como a tripulação do avião da Vietnam Airlines. Hanoi está a menos de 170 quilômetros da fronteira chinesa e eu começava a ficar apreensivo. Só que o clima em Hanoi era de vida normal, algumas máscaras por aqui, álcool gel por ali, plaquinha lembrando de lavar as mãos e só. As ruas estavam cheias, os restaurantes lotados (alguns com placas proibindo chineses), mas um conhecido que tenho na cidade preferiu deixar nosso encontro para uma próxima vez porque eu havia passado por Bangkok. Quanta neura. Imagina, esse vírus já está sendo controlado na China! Puxei papo com um italiano nos Correios e ele se desculpou por pegar minha caneta. Que nada, disse eu, pode ficar com ela (não tinha álcool gel nem coragem de guardá-la de volta na mochila – naquele dia, já havia alguns casos suspeitos na Itália).

Daria para ter ido de trem de Hue para Hanoi, mas o tempo era curto. Essa é a chegada na estação de Hanoi, que cria ruas perfeitas para instagramers.

Hanoi é uma de minhas cidades favoritas no Sudeste Asiático. O centro histórico é repleto de árvores gigantescas, que tomam conta das calçadas e das ruas. Há carrinhos de frutas, motos com patos e marrecos nas gaiolas, o mausoléu de Ho Chi Minh, senhorinhas empurrando bicicletas, gente tomando café em mesinhas e cadeiras bem baixas. No meio da cidade tem um lago bem grande, com um templo no meio. Da piscina do hotel dava para vê-lo e fiz algumas caminhadas ao seu redor. Comemos muito bem, para variar. Bebemos vinho local (o Vietnã produz vinho nas montanhas de Da Lat). Quase fomos atropelados várias vezes pois cruzar as ruas é uma aventura. Tudo muito riso, muita alegria.

Hanoi em azul.

Hanoi em verde e amarelo.

Um comentário que não poderia deixar de fazer aqui. O Vietnã é um país comunista, que está abrindo a economia pouco a pouco. Há bandeiras vermelhas com a foice e martelo por todos os lugares. Há também painéis enormes à la soviética, exaltando as pessoas, os agricultores, os trabalhadores, etc. Tudo é muito limpo. Os trens saem e chegam no horário, assim como os aviões. Não há mendigos nas ruas. Tem lojas, restaurantes, shoppings, cafés e tudo o que faz uma sociedade vibrante. Os mercados estão cheios de produtos. Todas as ruas estão cheias de gente vendendo frutas e verduras. Não há medo de sair na rua, de que roubem a tua carteira. Nota-se que há diferenças de classe e que há certo controle nas ruas (há sempre um policial por perto). Mas não é nenhum inferno na terra e acredito que muitos vietnamitas comunistas vivam melhor do que muitos libertários brasileiros. Fica apenas a observação de um viajante. Não estou aqui para dizer o que é melhor ou pior. Apenas comento o que vi e senti.

Soneca vietnamita.

A cidade das árvores gigantescas e suas raízes majestosas e eu fazendo pinta.

Adivinhe onde estou?

Consegui pedir um prato de pho sem carne. Enchia de limão e pimenta para matar todo e qualquer bicho que estivesse tentando penetrar minhas vias aéreas e digestivas.

Piscina com vista do lago central de Hanoi.

Na viagem de volta já vi que a coisa estava começando a pegar pelos aeroportos do mundo. Em Singapura mediram minha temperatura por cada corredor que passei. No voo para Addis Abeba, lotado até o último assento, o clima era de êxodo. Vim da Etiópia até São Paulo de máscara, com muita gente tossindo no avião. Tossir em voo é coisa bem normal, mas minha paranoia foi extrapolando. Pensei que tinha gente ali vindo dos quatro cantos do mundo e que alguém poderia já estar com o tal vírus. Torci para a ANAC não colocar o voo em quarentena e já preparava meu discurso para a fiscalização na chegada em Guarulhos. Chegamos e nada. Saímos livres, leves e soltos Brasil afora. Eu fiquei de máscara por dois dias, até me incomodar de ser olhado como um ET na rua. Bons tempos aqueles, hein?

Antes de você ir embora, deixa eu dizer que voltei apaixonado pela Indochina, Vietnã ou como quer que a gente chame o lugar. Quero muito voltar para lá e ir do sul, da Cochinchina, de trem, beirando a costa toda, até a China. Fica para um futuro incerto, numa data ainda desconhecida, de um mundo novo que está surgindo. Fique bem. Obrigado por passar por aqui.

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