Como ir ao Butão, um guia prático

Cruzando o Dochula Pass

Chegando ao Tiger’s Nest

Minha viagem ao Butão

O Butão estava há anos na minha lista dos “Países a Visitar”. Mas, por ser longe e não tão fácil de programar uma viagem para lá, ia deixando para um outro dia. E o tempo ia passando. Até que, em outubro de 2016, meu irmão e minha cunhada foram para lá e eu fiquei hipnotizado com as fotos e os vídeos deles no Instagram. Foi então que eu decidi que 2017 seria o ano em que eu finalmente conheceria o Butão. Seria meu PNA de 2017 e eu tinha um ano para programar a viagem.

E o que vem a ser um PNA? É País Novo do Ano, ou seja, tento conhecer pelo menos 1 país novo a cada ano e o Butão foi meu 105º. #lacrei 😉

Arquitetura local

Passei cinco dias lindos nesse pequeno paraíso espremido entre a Índia e a China. Fiquei duas noites em Thimphu, uma em Punakha e outras duas em Paro. Foi uma viagem em um ritmo bem diferente, já que a programação no Butão é a de ver templos, caminhar nas florestas, admirar a natureza e curtir o hotel (piscina, massagem, vistas). Fora um “centrinho” em Thimphu com bares animados na sexta e no sábado e uma confeitaria em Paro e algumas lojinhas, não tem muita variedade deste tipo de turismo. A viagem é para dentro de si, pois há bastante tempo para pensar e refletir. Meditar nos templos do Butão é sensacional pois entra-se em estado de concentração muito rapidamente, como se fossem lugares canalizados com a energia superior.

RKPO Green Resort em Punakha com suas cores brasileiríssimas

Fui com um amigo, o Alan, e ficamos no Le Méridien em Paro e em Thimphu e num hotel local, o RKPO Green Resort, em Punakha. Tínhamos um guia e um motorista (todo mundo no Butão tem que ter), que viajaram junto conosco durante esses dias. Apesar de convidarmos os dois para almoçar com a gente, eles nunca aceitaram. O guia falava um inglês ok, o motorista quase nada. A gente completava as informações com o guia Lonely Planet do Butão.

Templo Tibetano em Thimphu

Muita gente ouve falar do Butão por ser esse lugar mítico onde todo mundo é feliz. Pode ser verdade. Claro que o conceito de felicidade é algo bastante relativo. Mas em uma região do mundo onde há muita poluição e miséria, o Butão se sobressai sem nem uma nem outra. Nota-se que está havendo mudanças com a introdução da internet, telefones celulares, privatização do turismo e ascensão social de um certo grupo de butaneses, mas no geral há bastante coesão social e as crianças são ensinadas desde pequenas que ser feliz não é ter coisas e sim viver a vida com dignidade, saúde, amigos e bem-estar.

Pátio do Dzong em Punakha

No Butão não se usam agrotóxicos nem sementes geneticamente modificadas. Há um esforço grande por parte do governo de replantar zonas de florestas degradadas. O Butão é negativo em emissões de carbono pois exporta muita energia hidrelétrica para a Índia e tem mais de 65% do território coberto por florestas virgens. Os quase 800 mil butaneses vivem espalhados por um território quase do tamanho do da Suíça, que tem 8 milhões de habitantes. Não há semáforos de trânsito em todo o país, mas na capital, Thimphu, pipocam as revendas de carros Volvo, Honda, Hyundai etc. Aos poucos o país se transforma.

Florestas por todos os lados

O guia falou que não se pode pescar nos rios butaneses (para não matar os peixes) e não há abatedouros. Mas daí o país importa comida da Índia e de outros lugares (com agrotóxicos). Nas frutarias e mercados tudo é embalado em saquinhos plásticos. Garrafas plásticas e latas de refrigerante são onipresentes. Deu vontade de chorar quando, ao fazer a trilha para chegar ao cartão-postal butanês, o templo do Tiger’s Nest, pilhas e pilhas de lixo se acumulavam no caminho. No final do dia vi que algumas senhoras colocavam o lixo em sacos de juta e desciam com eles na cabeça. Mas para onde vai todo aquele plástico? E o que é jogado mais longe ou sai voando? Seria tão fácil o rei ter banido plástico por decreto ou haver uma regra que todo o lixo carregado na mochila dos turistas deva ser levado de volta para fora do país.

Lixo no caminho

Outra coisa que me deixou um pouco triste foi a falta de variedade de alimentos nos mercados. Tem cenoura, maçã, alface, abobrinha, berinjela, abóbora, manga, mas não são mercados multicoloridos como os da Índia e da Tailândia. Talvez o clima montanhoso não seja tão propício para outras variedades mais tropicais. Sei lá.

Mercado de alimentos de Thimphu

Voltando a falar das coisas positivas… Mesmo sendo alta temporada, a impressão que tínhamos quase sempre é de que estávamos só nós de turista no país. Foram poucos momentos em que encontramos aglomeração de turistas. Nos dzongs, que são os fortes de cada região e onde se concentra a administração local e os monges budistas, quase sempre estávamos eu, o Alan e o nosso guia.

As estradas, ou melhor, a estrada, é uma pista simples que serpenteia o país de leste a oeste. O segredo é viajar de dia e sempre sem pressa. Não é incomum ver pastores com suas vacas ocupando boa parte do caminho. Há pequenos templos, bandeirinhas e muito verde por todos os lados. Foi incrível sair do vale de Thimphu, onde a vegetação é “alpina”, cruzar o passe Dochula, a 3.100 metros de altitude, e entrar no vale de Punakha, com uma vegetação mais à la Mata Atlântica. Ali deu para perceber que o Butão, apesar de pequeno, é bem variado.

Para resumir, gostei bastante da viagem, é claro. É incrível chegar em um lugar que a gente sempre quis conhecer. Por outro lado, fiquei com um certo gostinho de “quero-mais”. Tinha em mente altas montanhas cobertas de neve e templos solitários incrustados morro acima. Foi um pouco diferente do imaginado.


Como fazer para ir ao Butão?

VISTO
Muita gente acha que o Butão é de dificílimo acesso e que o visto é quase impossível de conseguir. Mentira. É muito mais fácil ir para o Butão do que para a Disney, já que o visto butanês é dado automaticamente para quem fecha um pacote de viagem para lá. Sim, é longe, mas nada que dois ou três voos não resolvam. Explico melhor o processo mais para a frente.

Campeonato de Arco e Flecha, o esporte nacional

QUANDO
Primeiro é preciso decidir quando ir. A alta temporada é outubro e novembro por causa do clima ameno. De dezembro em diante faz muito frio e o país fica coberto de neve até a primavera. O verão, por outro lado, é muito chuvoso. Por isso é bom se programar com antecedência já que não há muitos voos nem hotéis no Butão, pois é assim que o governo butanês controla o volume de turistas por lá.

VOOS
O Butão tem um único aeroporto internacional, em Paro. Somente duas empresas locais voam para lá, a Bhutan Airlines e a Druk Air de Nova Délhi, Calcutá, Katmandu, Bangkok e Cingapura. Ou seja, é preciso voar até um desses pontos de partida, o que não é ruim, pois a viagem fica mais interessante. Eu fui até Nova Délhi, na Índia. Fiz o visto indiano pela internet.

Nem a Druk Air nem a Bhutan Airlines fazem parte de alianças globais de companhias aéreas, então é preciso comprar a passagem separada no site delas. Não é muito barato já que não tem concorrência. Eu paguei cerca de USD 600 pelo trecho Delhi-Paro-Delhi.

HOTÉIS
Todos os turistas que vão ao Butão precisam fechar um pacote com uma operadora de viagens local. Ela vai ser o ponto de contato entre você, o turista, e os provedores locais (visto, guia, motorista, restaurantes e hotéis). Alguns hotéis vendem os pacotes no próprio site como o do Le Méridien Bhutan Packages e o do Aman Resorts Journeys. No meu caso, comprei o pacote no site do Méridien, mas a empresa em si, que fez o visto e a parte burocrática foi a Keys to Bhutan.

PACOTE
A filosofia do turismo no Butão é low impact, high value. Eles querem poucos turistas, mas que tragam bastante dinheiro. Acho justo. Então ficou estabelecido que cada turista precisa gastar no mínimo USD 250 por dia no país. Para grupos de uma, duas ou três pessoas há uma pequena sobretaxa. Isso não inclui a passagem nem o visto, que custa uns USD 40. Então se você quer ir para lá gastando o mínimo do mínimo, vai ter que fazer caber nos USD 250 diários o teu hotel, guia, motorista, refeições e entradas nos templos e museus. Acaba que se gasta mais, principalmente nos hotéis melhores.

Brioche Café em Paro, com doces e bolos feitos pela pastry chef do Aman Resorts

DINHEIRO
Dá para pagar a passagem e o pacote com cartão de crédito Visa e Mastercard. American Express não funciona. As operadoras mandam um link para pagamento. O Butão tem caixas automáticos ligados às redes internacionais, mas quase não se usa dinheiro vivo por lá. A cotação do ngultrum é a mesma da rúpia indiana, por isso dá para usar o dinheiro da Índia. Como quase tudo é pré-pago, troquei USD 100 na chegada e durou a viagem toda. Comprei uns souvenires, sementes, cartões-postais e tomei café numa confeitaria em Paro e sobraram ngultrums. Dá para usar euro e dólar nas lojinhas.

RECOMENDAÇÕES
Como uma viagem ao Butão é algo que se faz uma vez na vida, minha sugestão é ir quando você puder gastar o suficiente para ficar nos hotéis legais. Eu escolhi os Le Méridien, que estavam a meio caminho entre os luxuosos Aman e Uma Resorts. O pacote foi cerca de USD 4.000 por pessoa com visto e tudo incluído (só a passagem que foi extra). A passagem até Nova Délhi consegui com milhas. Agora, se você quer muito muito muito mesmo ir para lá e não rola hotel desse tipo, minha dica é entrar em contato com qualquer operadora butanesa que se encontra na internet, tipo a Keys to Bhutan, e pedir a cotação de um pacote básico. O bacana é que você vai ficar em hotéis de empreendedores locais e ter uma experiência mais autêntica.