Coronadays 10.04.2020

Família de quarentena comemorando aniversariantes da semana.

Em Português (for English, try going to the end of the post and clicking on Translate, I hope Google Translate will do a good job)

🇧🇷 Março abriu as portas de Abril e já estamos no dia 10. A Páscoa já chegou e num pulo é Tiradentes. O tempo tem passado depressa nestes dias de Fique em Casa. Achei que teria tempo de escrever meu livro, de aprimorar o alemão, de fazer várias séries de exercícios e de conversar horas à fio com amigos ao redor do mundo. Contudo, o que tenho feito é preparar o café da manhã, lavar a louça do café da manhã, ler as notícias, prometendo que serão apenas 30 minutos e, 2 horas depois, pensar no que fazer para o almoço antes de terminar as planilhas e controles diários da Pulp.

Vem o almoço, a louça do almoço, um pulo até a lavanderia para dobrar as roupas que eu lavei no dia anterior e a vassourada diária pela casa. Deixar as janelas abertas junta um pó que nem te conto. Preciso lavar o lençol da cama e me dá uma preguiça. Daí tiro um tempinho para mim, para relaxar lendo na rede da sacada, fico duas horas imerso num livro, depois trabalho mais um pouco, tento fazer alongamentos, um pouco de ioga no YouTube, que largo na metade, volto a ler notícias, vou interagir no Instagram, anoitece. Hora de comer de novo. Quem sabe medito antes de dormir?

E assim vou levando. Confesso que tive 14 dias maravilhosos com minha família na fazenda. Foi um lindo interlúdio entre a quarentena urbana. Em 14 dias convivi com meus pais, irmão, cunhada e sobrinhas mais do que nos últimos 14 meses. É estranho conviver com tanta gente, eu, um ser introspectivo, que nutre certo prazer na solidão. Passei horas imerso nas brincadeiras com as pequenas sobrinhas, a montar quebra-cabeças, a pular horas a fio no pula-pula. Fiz pizza com minha cunhada, tivemos três festas de aniversário (a da Cecília, 2 anos, do meu pai, 73, e do Raul, 43). Junto com eles o tempo passou mais depressa, a ansiedade foi compartilhada e as refeições mais animadas. Bebemos vinho todas as noites para comemorarmos o simples fato de estarmos todos juntos. Estávamos em nossa bolha familiar, nossa quarentena no interior, onde ninguém mais entra e ninguém sai.

A internet só funciona bem em certos pontos estratégicos e era ali onde eu ia trabalhar.

Na fazenda, o contato com a Natureza é um maravilhoso antídoto para as angústias da atualidade. Dormi de cortinas abertas para ver o sol nascer, fiz caminhadas com meu pai pela mata e pelos campos, fui com meu irmão passear no Rio Bonito, que passa por dentro da fazenda. Abracei os cachorros da minha mãe, colhi vários quilos de batatas-doce que plantei há quase dois anos, podei árvores, plantei feijão. Vimos a lua cheia subir majestosa no céu e todos paramos para admirá-la. Quando choveu foi uma festa. A terra precisava de água e ficamos vendo as nuvens pesadas se aproximarem, os raios e trovões assustando as sobrinhas, o vento. Curtimos o cheiro da grama molhada. E isso bastou para que os 14 dias fossem uma terapia em família.

Passeio pelo Rio Bonito.

Ioga com a sobrinha.

Minha pequena floresta subtropical.

Posso sobreviver comendo batata-doce.

Tive que voltar para Curitiba por causa do trabalho. Estou em casa. Saí ontem para ir ao escritório, para comprar comida e só. Agora planejo ficar aqui, sozinho, pelo menos por sete dias para poder voltar para a fazenda e fazer companhia para os meus pais. Vamos ver. Meu pai não entendeu muito bem ainda o conceito de isolamento e tenho sido o cão de guarda, o chato que esconde a chave do carro. Não sei se minha mãe aguenta.

Aqui em Curitiba substitui a Natureza pelos pequenos prazeres. Presto atenção na maciez do travesseiro, na delícia que é tomar um banho. Tenho um cobertor antigo, puído, que uso no sofá, quando leio. Leio ótimos livros (clique para a lista). Sinto o cheiro do papel. Canto na cozinha. Gosto de playlists de shows ao vivo pois finjo que sou tanto o cantor no palco quanto a plateia com os aplausos. Curto o cheiro do pão quando sai da torradeira, a textura da geleia de mexerica. São essas as coisas que importam agora. Na verdade, que sempre importaram, mas que ficam mais difíceis de notar quando a vida frenética embola tudo. E quando lembro que não dá mais para ir para lugar nenhum, penso que posso navegar pela imaginação e um dia sim, mesmo que os cenários mais apocalípticos dos jornais se concretizem, ainda posso sair mundo afora caminhando pelas estradas, ou quem sabe, trocar o que sobrar por um pequeno barco à vela.

Li um texto lindo da autora polonesa Olga Tocarczuk onde ela fala que ultimamente havia muito mundo em nossas vidas, muito alto, muito rápido. Diz que a quarentena tem feito ela lembrar da infância, quando era possível “matar” ou “perder” muito tempo olhando da janela, lendo a enciclopédia, fingindo que a mesa da cozinha era a Arca de Noé. Pode ser que a lição de vida dessa pandemia seja essa, de olhar para o pequeno, de reaprender a matar tempo, a curtir o ócio, a se curtir. O texto envereda por um lado mais sombrio da atualidade em que as fronteiras, que achávamos tão ultrapassadas e invisíveis estavam todas ali, apenas de quarentena, esperando o dia de serem novamente levantadas. Leia que vale a pena.

Falando em textos e livros, quando tinha uns 14 anos li Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva. Na história, os personagens voltam de um fim de semana em cavernas no interior de São Paulo para descobrir que são as únicas pessoas vivas na cidade. As imagens que fiz há 30 anos durante a leitura têm voltado ao ver cenas de cidades abandonadas mundo afora. Acabei de reler o último parágrafo, onde o personagem principal leva uma criança (não lembro de onde ela surgiu) ao mirante do Pico do Jaraguá para ver a cidade e fala: “Meu Deus, a que ponto chegamos…” E penso, a que ponto chegamos, neste 2020 futurista?

Obrigado por passar por aqui. Fique bem. Caso esteja se irritando demais com os familiares, leia esse artigo do El País sobre o confinamento das equipes da Estação Espacial e das bases científicas da Antártica. E se a ansiedade estiver fora do controle, tem um vídeo ótimo no YouTube da School of Life. Se, por outro lado, o medo é o que está te incomodando, que tal ler “A Morte é um dia que vale a pena viver”, da médica paulistana Ana Claudia Quintana Arantes. Segundo ela, a melhor maneira de aprender a morrer é viver intensamente cada dia. Bem, fico por aqui, tenho encontro marcado na janela de casa com o pôr do sol.

Tentei meditar neste canto de um reflorestamento só que os mosquitos foram vorazes e me picaram até por cima da cueca, que ficou um pouco para fora da calça, sabe? Coça muito!!!