Coronadays 13.08.2020

Estou dentro desta espaçonave agora enquanto escrevo. Biblioteca Oodi de Helsinki.

Helsinki, Finlândia, 13 de agosto de 2020

Faz bastante tempo que não dou notícias por aqui. Sentei várias vezes para começar a escrever desde a última vez, mas sempre havia algo mais interessante (e instigante) para fazer, ou não encontrava um lugar confortável onde sentar e começar a digitar.

Encontrei esse lugar em Helsinki na Oodi, a magnífica biblioteca central da cidade. Ao mesmo tempo, um vento gelado, soprando diretamente da Sibéria (que fica aqui ao lado) escondeu essa chama trêmula que é o verão escandinavo, transformando a tarde no monumento arquitetônico aos livros e à cultura num programa delicioso.

Cheguei aqui há dois dias vindo de Berlim, onde passei uma semana linda, mas com um calor surpreendente. Dormia sem roupas e com a janela aberta. Mesmo assim acordava suado ao longo da noite. Durante o dia, com o mercúrio perto de 37 graus, derretia os cabelos e corria de uma sombra para a outra, como fazia quando morava em Barcelona.

Berlim continua mexendo comigo, mas está mais calma neste verão pandêmico. Não há teatros nem espetáculos. Também não há as hordas de turistas vagando pela ilha dos museus ou tirando fotos no monumento aos judeus assassinados. A Europa está assim por todas as partes. Já havia comentado isso de Paris no post anterior. Na Grécia, onde estive antes de chegar em Berlim, foi igual. Há turismo doméstico e intra-europeu, mas muita gente ficou em casa e o grande volume trazido pelos EUA, China e Rússia (e até certo ponto do Brasil, México e Índia) não foi substituído nem de longe pelos europeus que também não puderam ir para longe. Tem sido um verão atípico, claramente.

Eu tenho pingado de lugar em lugar dependendo da situação epidemiológica do momento. Não adianta fazer planos mais longos do que de uma semana pois tudo tem mudado muito rapidamente. No dia em que entrei na Finlândia, os belgas, holandeses e luxemburgueses voltavam para a lista negra, junto aos franceses, ingleses e espanhóis. Há momentos em que tenho crise de identidade, pois me sinto tão brasileiro e aqui visto a fantasia do italiano que, por hora, está habilitado a cruzar as fronteiras mais sensíveis da Coroneuropa.

Mas vamos dar alguns passos para trás. Primeiro vamos levantar voo aqui do paralelo 60ºN e descer para o Mar Egeu. Meu amigo Alan, que vive em Paris, havia programado uma viagem linda para a família dele do Brasil vir passar o verão com ele na Grécia. Quando as fronteiras se fecharam, uma parte das reservas já tinham sido pagas e sobrou uma cama, que abocanhei sem titubear. Visitamos as ilhas de Milos (nos hospedamos no vilarejo de Apollonia) e Sifnos. Eles seguiram para Paros e eu aproveitei a “baixa temporada” para visitar finalmente Santorini e ver o pôr do sol mais famoso da Grécia. Achei lindo e mesmo em tempos de pandemia, o fim da tarde o vilarejo de Oia lotava de gente. Hoje cedo li que os números de infecções voltaram a subir na Grécia e lembrei de toda aquela gente se apertando nas ruelas para tirar fotos com o sol descendo atrás da gigantesca caldeira (eu fiz como os gregos e usei máscara protetora o tempo todo).

De Santorini rumei para Berlim, que estava tão quente quanto Atenas. Nos dias em que estava isolado em Curitiba e via o mundo fechado, um grande sonho que tinha era poder mergulhar nos lagos de Berlim no verão. Consegui e curti cada segundo para poder relembrar nos próximos meses de isolamento, já que um dia vou ter que voltar para Curitiba e que infelizmente a situação caótica da pandemia brasileira não dá trégua. Meu termômetro aqui são as nuvens que vêm da Sibéria. Antes das folhas das árvores caírem, quero estar de volta ao meu aconchego no Bigorrilho.

Enquanto este dia não chega, já que o aquecimento global tem prolongado o verão, mesmo aqui nas portas do Polo Norte, aproveito este país maravilhoso e civilizado. Tenho uma relação de longa data com a Finlândia pois trocava cartas com a Kaisa, uma menina finlandesa que foi minha pen-friend durante anos e que vou encontrar no domingo para o aniversário da filha dela.  Sempre usava Helsinki como ponto de passagem de ou para algum lugar. Nunca tinha vindo para ficar, para ir ao supermercado, à festinha de aniversário no parque, para correr de manhã (me perdi no bairro), para fazer sauna e passar uma tarde na biblioteca. Era outro sonho que tinha.

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