Coronadays 14.05.2020

Crew Position Cards para documentar as horas voadas e os destinos.

🇧🇷 Viajando pelo meu apartamento, numa escala entre a sala e a cozinha, topei com alguns documentos antigos que ainda guardo (lembrando que sou levemente acumulador). Salvas de serem despachadas para a reciclagem, minhas fichas amarelas da época em que trabalhava na Emirates chegaram sãs e salvas ao dia de hoje para alegrar a minha quarentena.

Essas fichas são chamadas de Crew Position Cards e nelas eu anotava a data, número de voo, destino, posição ocupada no avião e as horas de voo de cada perna. Era quase como um cartão de embarque interno. Controlar as horas de voo era importante primeiro porque meu salário dependia delas. Quanto mais horas, mais dindim. Por outro lado, eu não podia extrapolar nas horas voadas. Tinha que me manter dentro das normas internacionais de voo (se bem que na Emirates éramos sugados ao último minuto). Mesmo assim, houve um mês, por exemplo, em que voei 114 horas.

Fui para Dubai com a intenção de viajar para o maior número de lugares que pudesse. Além dos voos a trabalho, se eu conseguisse juntar mais de três dias seguidos de folga, embarcava como turista. O aeroporto de Dubai era a minha rodoviária. A cada mês, havia uma rotação em que os comissários tinham prioridade em pedir destinos específicos para voar. Era muita emoção o dia em que as escalas ficavam prontas e eu descobria para onde iria no mês seguinte. Eu pedia Nova York, Osaka, Sydney, Xangai e, na maioria das vezes, ganhava Mumbai, Doha, Cairo ou Daca.

Welcome on board. What is your seat number please? 118Z?

Um exemplo que encontrei aqui. Janeiro de 2004. Dia 3, ida e volta a Moscou (nesta época ainda não ficávamos na cidade, era bate-e-volta). Dias 6 e 7, Dubai – Londres Gatwick, dia 10 bate-e-volta para Teerã, dias 12 e 13, Dubai – Düsseldorf, dias 15 e 16 outra vez Dubai – Londres Gatwick, dia 22 bate-e-volta de madrugada para Jeddah, Arábia Saudita e, para fechar o mês com chave de ouro, de 28 a 30 Dubai – Sydney – Auckland. Total de horas no mês: 92.

Como turista, cansei de tanto viajar. Muitas vezes ia para o aeroporto e embarcava para onde houvesse lugar disponível. Nós, funcionários, só embarcávamos se sobrassem lugares vazios. Era uma ânsia para sair de Dubai, que na época não tinha quase nada para fazer. Nos meses de calor então, a ânsia se multiplicava, pois viver na sauna úmida em que Dubai se transformava era insuportável. Passei um dia em Viena, outra vez em Istambul. Conheci Sanaa no Iêmen, explorei Borobudur, em Java. Tudo isso em dias de folga.

Todo mundo sonha em usar esse chapeuzinho velado da Emirates.

Contudo, sempre o que temos em demasia nos enjoa. Assim como hoje estou cansado de ir da sala para a cozinha para o quarto para a portaria buscar delivery, chegou um ponto da vida de comissário em que eu cansei de viajar. Enjoei de verdade. Tudo o que eu mais queria era poder ficar em casa, ver os amigos, fazer um curso, ter todo o tempo do mundo para não fazer nada. Tive um insight naquela época de que é preciso existir o desejo da viagem para ela ser completa. Quando viajar se torna banal ou até mesmo uma obrigação, é como comida sem gosto. Foi ali que acendeu a luz de que talvez o dia de alçar outros voos estaria chegando.

Outra coisa importantíssima para dar sabor às viagens é o planejamento. Os ingressos para o teatro, a exposição do Picasso, a reserva no restaurante da moda, um filme, um livro, um papo com um amigo que tenha voltado recentemente de lá. Tudo isso são ingredientes essenciais para a massa não desandar ao ir ao forno. Chegar em Paris, cansado da viagem da semana passada, pensando na viagem da semana que vem, correndo para pegar a galeria de arte aberta cansa e não alimenta. Pode acreditar em mim. Já passei por isso. Houve também os dias em que chegava na Austrália e ficava no quarto do hotel dormindo e comendo bandejas de room-service. Saía ao máximo para ir na esteira da academia. Sabia que poderia ser amaldiçoado por isso, e hoje talvez me sinta um pouco, desejando do fundo do coração poder nadar na piscina do Icebergs, em Bondi Beach, ou simplesmente sentar em um café parisiense, pedir uma taça de vin nature e ler o Le Monde. Ai, ai, ai (me imagine suspirando fundo neste momento).

Do überviajante de outrora para o prisioneiro das fronteiras de casa (para não dizer do Brasil, já que não tem como sair daqui, socorro) o que aprendi é que fomos feitos para o equilíbrio e variedade. Viajar de vez em quando ou ter uma tarde toda para ficar jogado no sofá lendo livros só são legais quando misturados com idas ao escritório, encheções de saco da vida cotidiana, academia, supermercado etc e tals. Mas como diz o pensador vietnamita Thich Nhat Hahn, da lama fazemos flores. Por isso viajo nas memórias, assisto a filmes, passeio por mapas e espero o dia de poder voltar a voar, cheio de desejo! Que banquete vou fazer!!!

Vale lembrar que o blog Views from the Top que mantive durante os 3 anos em que vivi em Dubai, de 2003 a 2006 segue ativo, como uma fotografia de uma época remota. Quem sabe um dia vire livro, pois falta incluir os detalhes picantes, que são inúmeros, desta época que transar com alguém era tão fácil quanto embarcar para Pequim.

Beijinho, beijinho. Tchau, tchau!

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