Coronadays 14.08.2020

Helsinki, 14 de agosto de 2020

Encontrei um lugar para escrever. Durante muito tempo achei que esse lugar seria uma cabana antiga no meio da floresta escandinava, onde me sentaria numa mesa perto da janela, com uma vela acesa e a luz de um abajur art nouveau para, observando os flocos de neve, preencher folhas e mais folhas manuscritas. Não foi bem isso que aconteceu, mas não reclamo, afinal, quando as musas cantam, há que fisgar a oportunidade.

Estou novamente na Oodi, a biblioteca hipermoderna no centro da cidade. É sexta-feira, quase oito horas da noite. O sol só vai se pôr às 21:43, é verão. Pensei: quem iria se enfiar numa biblioteca numa tarde linda de sol. Não uma tarde qualquer, mas uma sexta-feira de verão, com a temperatura acima dos 20 graus! E não é que tem bastante gente por aqui? E fecha só às 22h.

Talvez a presença de todos esses livros me olhando tenha feito as letras irem se encaixando mais facilmente. Pensava ontem, meio frustrado no apartamento alugado, por que diabos não consigo criar uma rotina de escrita. Escrever não é fácil, como ler, como comer ou assistir Netflix. Para mim é preciso criar um clima, ou o hábito, pois escrevo o tempo todo na minha cabeça. Ao invés de ter uma voz lá dentro, eu tenho um teclado, que fica escrevendo frases. Deveria anotá-las num caderninho (às vezes consigo).

Voltemos à Finlândia, país com o qual tenho uma relação de longa data. Quando eu era adolescente, meu pai veio para cá numa viagem de negócios e no meio das coisas que ele levou de volta, tinha um panfleto turístico com algumas informações e umas fotos. Para mim Helsinki, a capital, era um dos lugares mais longínquos e exóticos que poderia existir. Ficava imaginando o sol da meia noite ou a noite sem fim durante o inverno. Olhava para as fotos do panfleto e era como se eu quisesse me teletransportar para dentro delas para ver como eram as coisas por aqui.

Logo depois recebi uma carta de uma menina finlandesa chamada Kaisa. Na época eu fazia parte de uma lista de adolescentes globalizados que buscavam amigos por correspondência ao redor do mundo. Tinha colocado meu nome na lista pois eu colecionava moedas e selos e achava uma ótima maneira de aumentar a minha coleção se tivesse amigos mundo afora. A coleção de selos passou para uma bela coleção de amigos, alguns deles visito até hoje nas minhas viagens. A Kaisa é uma delas e no domingo vou na festinha de aniversário de 9 anos da filha dela.

Então desde cedo li sobre esse país nórdico que existe há tão pouco tempo. Sim, a Finlândia tem apenas 100 anos. Ela foi durante muito tempo uma colônia sueca, depois russa e, em 1917, declarou-se independente. É claro que havia os povos originários, ao norte, na Lapônia, que viviam aqui há séculos criando renas. Os brancos ocupavam apenas a parte sul. Hoje a Finlândia tem três línguas oficiais, o finlandês, o sueco e o sammi, além de ter uma pequena minoria russa. São 5.500.000 habitantes. Mas de todas elas é o finlandês que domina e é uma dessas línguas impenetráveis, que faz a gente se sentir idiota por não conseguir ler nada. Imagine que eu fiz algumas aulinhas de sueco há anos, para me sentir chique e cosmopolita e é com o que me viro para saber se posso apertar um botão ou entrar num lugar.

Me pego em vários momentos ao longo do dia morrendo de inveja dos finlandeses. Aqui tudo funciona, as pessoas são educadas (inclusive o sistema de educação daqui é o melhor do mundo), todo mundo fala inglês, a arquitetura é linda, tudo é verde, ecológico e sustentável. Nestes dias de sol dá até vontade de ficar aqui por mais tempo. Inclusive nestes dias de pandemia, por aqui a coisa anda bem calma e controlada. A população confia no governo, na ciência e respeitam o distanciamento social. Não vou ser Poliana e comparar maçãs com bananas, afinal, não podemos colocar um país nórdico ao lado do nosso tropicalíssimo continental Brasil. Mas há bastante coisa para aprender com a Finlândia, e coisas básicas, baratas e fáceis, que hoje em dia se tornaram politicamente carregadas, difíceis e caras no Brasil da ultra-direita.

Deve ter muita coisa ruim também por aqui. Alcoolismo, racismo, depressão. Mas acho que o que a Finlândia consegue é proporcionar uma vida boa, saudável e cheia de oportunidades para uma grande parte da população. Quem não consegue acompanhar, o Estado dá uma ajuda. O que notei desta vez é o crescente número de imigrantes. Imagine que quando vim para cá a primeira vez com meus 17 anos, ligaram para a mãe da Kaisa porque viram ela andando na rua com um “moreno”. Numa sorveteria a dona não quis nos servir. O que 30 anos não mudam numa sociedade quando há vontade, hein?

O governo atual, inclusive, é formado por mulheres bem jovens numa coalizão de centro, sociais-democratas e o Partido Verde. A primeira-ministra, Sanna Marin, tem 35 anos. Parece um sonho, né? Para mim o país é o melhor exemplo da fábula do Esopo da Cigarra e da Formiga, sendo os finlandeses a formiga, é claro, já que trabalham bastante para terem abrigo nos nove meses de frio do cão, sendo quase seis deles numa escuridão que me dá até medo de pensar. Me sinto a própria cigarra pensando em escapar para o Brasil assim que as primeiras folhas das árvores ficarem marrons.

Já vim para cá no inverno e é impressionante como a vida continua, apesar do gelo na rua. Algumas delas têm aquecimento. Mas lembro de ir com a Kaisa e a filha dela, que ainda era bebê, para tomar cerveja num bar na beira do mar, que estava congelado, eu com todos os casacos e gorros e botas e meias que já tive na vida e o povo ali curtindo o solzinho que é meio de lado, faz umas sombras enormes na neve. Ela me levou para esquiar e havia turmas e mais turmas de senhoras da terceira idade esquiando pela floresta. Claro que quando voltam para casa, dentro delas faz mais de 20 graus. Não é como no Brasil, e especialmente em Curitiba, que se faz oito graus na rua, faz oito graus na sala e o vento penetra por baixo da porta e pelas frestas das janelas.

Inverno finlandês por quatro dias é uma delícia. Imagina ter que passar todos os anos pelo menos quatro meses sem ver direito a luz do sol, pois mesmo que o sol nasça, tem tanta nuvem que fica tudo cinza quase o tempo todo. Tem gente que usa lâmpadas de raios ultravioleta para o cérebro achar que é verão. Quem pode marca as férias para fevereiro e vai para onde faça sol. No verão eles gostam é de ficar aqui, para aproveitar os lagos e as praias. Dizem que os mosquitos e pernilongos finlandeses são os maiores do mundo, já que tem tanta água e renas. Eu não fui muito para longe da região metropolitana da capital, já levei todas as picadas de mosquito de 2020 nas noites escaldantes de Berlim.

São 20:45 e o sol está dando um espetáculo lá fora. Vou me juntar aos adolescentes do skate que estão na frente da biblioteca para ver os balões no céu colorido de laranja. A brisa da tarde se transformou num vento gelado e eu trouxe minha jaqueta Uniqlo de penas para conseguir voltar para casa sem congelar no meio do caminho. Nota-se que não sou daqui porque não estou nem de bermuda, nem de camiseta. Quando a Sibéria é aqui ao lado, as andorinhas fazem verão com quaisquer 15 graus. Pensando nisso eu paro de ter inveja dos finlandeses.

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