Coronadays 20.08.2020

Catedral e campanário de Vilna

Vilna, Lituânia, 20 de agosto de 2020

O mal do mundo

Dei dois saltos pequenos desde o último post. Um de 40 minutos, entre Helsinki e Riga. Outro de 30 minutos entre Riga e Vilna, ou Vilnius. Vim pisar na Lituânia para completar o trio de países bálticos. Estônia e Letônia eu conheci em 2011. Chegar aqui foi um pouquinho trabalhoso pois a Lituânia não está dando mole para quem vem de outros países europeus. Teve controle de passaportes, mesmo dentro do espaço Schengen, controle de temperatura e entrevista para saber se eu tinha estado, nos últimos 14 dias, em algum país com a pandemia descontrolada (quase todos, menos a Itália, Alemanha, Finlândia, Noruega e os dois outros bálticos). Por sorte já fazia mais de 14 dias que eu tinha saído da Grécia senão receberia código vermelho e teria que fazer quarentena obrigatória, com visitas diárias de profissionais da saúde.

Igreja de São Francisco de Assis

Quem nasceu pelos idos dos anos 1970 (ou antes) não deve saber muita coisa sobre Estônia, Letônia e Lituânia. Na verdade, pouca gente, mesmo mais jovem, sabe. Esses três micro-países nórdicos faziam parte a União Soviética quando minha geração estava na escola. A independência deles foi ofuscada pela dantesca implosão da Iugoslávia e depois não se falou muito mais neles. Mas eles estão aqui e tinindo. Fazem parte da União Europeia, do euro e da OTAN. Deram um salto quântico em desenvolvimento desde o fim da União Soviética e põe países como Itália, Portugal e Grécia no chinelo. Apesar de não termos estudado nada da sua história, eles tiveram participação especial em vários momentos históricos que você deve lembrar. Quer ver só?

Lembra quando Napoleão invadiu a Rússia? E quando o exército de Hitler marchou até Leningrado para o cerco da cidade, que durou 900 dias? E o Holocausto? Ah, e as limpezas étnicas de Stálin? E as gulags da KGB? Lembrou? São alguns acontecimentos históricos, onde o mal do mundo foi encenado aqui. Nos livros de história lemos que o exército de Napoleão passou um frio horrível e que os russos dizimaram as vilas para que não houvesse comida. Essas vilas eram aqui. Quando a Alemanha invadiu a Polônia, boa parte da comunidade judaica fugiu para cá, para serem massacrados meses depois. Vilnius era conhecida como a Jerusalém do Norte. Stálin não deixou por menos e dispersou nacionalistas lituanos com suas famílias para o Cazaquistão e para a Sibéria. A KGB torturava quem falava lituano. Incrível que tenha sobrado algo para se chamar um dia de Lituânia.

A cidade é muito verde, muito mesmo!

Estônia, Letônia e Lituânia cabem em São Paulo. A Estônia tem 1,3 milhão de habitantes, a capital é Tallinn e falam uma língua próxima ao finlandês, que não é próxima de nenhuma outra língua indo-europeia. Já a Letônia, com 1,8 milhão de pessoas e com a capital em Riga é mais próxima da Lituânia, que tem 2,7 milhões de pessoas e a capital é Vilna. Mas se hoje a Lituânia cabe no bolso, um dia foi um dos maiores impérios da Europa. Isso lá por 1400. E se juntou com a Polônia, igual Áustria e Hungria fariam anos mais tarde. Claro que por estarem neste lugar de trânsito entre a Europa Ocidental imperialista (Prússia, Napoleão, Hitler, Habsburgos etc) e a Rússia, acabaram pagando o pato e sendo palco de batalhas sangrentas (e geladas) e divididas entre um lado e o outro depois de cada grande guerra. Igual troco de chicletes.

interior de alguma das várias igrejas em que entrei, todas ficam com as portas abertas, livremente

O maior medo dos bálticos hoje em dia, além da crise pós-coronavírus, é serem invadidos pela Rússia. Isso fica bem claro neste exato momento em que a Bielorússia, aqui ao lado (Minsk, a capital, fica a 120 km daqui), está implodindo e os tanques do Putin estão se aproximando da fronteira, só por precaução. Imaginar que a uma hora de carro daqui há gente sendo presa e torturada, greves gerais e convulsão social é estranho, pois nada poderia ser mais bucólico e passivo do que a Lituânia.

Museu de arte contemporânea para quebrar o barroco

Me chamou a atenção a quantidade de igrejas pela cidade. Algo que só tinha visto na Itália, Portugal e Espanha. A grande maioria é católica. Achei estranho, mas daí lembrei da ligação deles com a Polônia e a ficha caiu. Pela cidade, os ministérios e outros prédios do governo parecem a casa da tia. Não têm grades, nem guardas, nem nada. Poderiam ser um salão de massagens tailandesas ou um café vegano se não fossem as bandeiras na entrada. No fim da tarde as pessoas vão fazer caminhadas pelos parques. A rua principal está fechada para carros, para dar espaço de distanciamento social entre os transeuntes. Há marrecos nos lagos, abelhas nas flores, meninas de chapéu vendendo sorvetes e jovens ziguezagueando de patins elétricos ou bicicletas. Até agora, morreram 82 pessoas de covid-19, menos que no Bigorrilho, Juvevê, Batel e Cabral (ou seja, 30 por milhão). É uma civilidade tamanha que me dói na alma, assim como na Finlândia. Porque eles sim e a gente não? Será que quando todo o mal do mundo é solto em cima de um lugar, depois que as cinzas se refazem em fênix surge algo desse jeito? “Uma bomba sobre o Japão, fez nascer o Japão da paz”, como canta Gilberto Gil.

a sopa fria de beterrabas com batatas é um dos pratos tradicionais e adorei!

o bairro modernoso, pra provar que aqui também tem desenvolvimento 😉

Tenho pensado que talvez a melhor forma de uma população se auto-governar é quando é pequena, onde “quase todo mundo se conhece”. Fica mais fácil de cobrar dos governos, de dividir os impostos, de equiparar o desenvolvimento. Sei lá… é isso que tem enchido a minha cabeça nestes dias por aqui. Até a Alemanha e a França eu tenho achado grandes demais. Vou parar as divagações por hoje. Ainda tenho três dias de explorações lituanas e conto mais numa próxima oportunidade, na próxima parada, num próximo passeio no parque. Obrigado por me acompanhar. Caminho por aqui pensando no que escrever para você ler aí.

o centro histórico fofura

Igreja da Ascensão Divina (fechada por hora)

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