Coronadays 30.06.2020

BRASILEIRO ESCAPA DA QUARENTENA E REFUGIA-SE NA FRANÇA

🇧🇷 A CONFISSÃO

Vou abrir o dia de hoje, fim da primeira metade de 2020, com uma confissão. Sinto-me culpado, um verdadeiro traidor. Acredito que elaborando esta confissão escrita, este documento digital que ficará preso à nuvem para a eternidade, eu consiga expiar o que sinto. Não cometi nenhum crime, mas a sensação que tenho é de haver burlado algo, enganado funcionários públicos. Enfim, fugi. Fugi do alerta laranja e das curvas ascendentes. Fugi das notícias do psicopata de Brasília. Fugi do frio. Fugi do país.

Fugir talvez não seja o melhor verbo, apesar de fuga ser o que sinto. Há dias acompanhava as notícias da reabertura de certas fronteiras, da volta de certos voos e minha cabeça viajante voltou a funcionar. Será que seria possível escapar do meu apartamento, entrar em um avião e cruzar uma fronteira? Clique aqui, download ali, mensagem acolá e o plano foi criando forma. Fui para a fazenda para avisar meus pais que os amava muito, mas que iria tentar escapar por um tempo. Vá aproveitar a vida, foi o que disseram.

O PLANO

Então, aproveitando a vida aqui estou. Numa gélida manhã de domingo embarquei num voo lotado da Latam de Curitiba para Guarulhos. Morrendo de medo de pegar covid, viajei imóvel, de máscara N95, aquela superpoderosa que deixa marca na cara, tubo de álcool gel no bolso da calça. Desembarquei em um Terminal 2 mais cheio do que imaginava, afinal, estamos em meio a uma pandemia desenfreada. Mas a distopia brasileira faz com que cenas improváveis se tornem realidade. Estava com muito medo. Medo de sair de casa, da zona de conforto. Medo do vírus, de aglomerações. Medo de não poder embarcar, de ser barrado. Quanto mais esmiuçava as linhas miúdas das regras de viagem, mais parecia uma tarefa impossível, proibida até.

Acontece que tem uma outra voz dentro de mim, que fala mais alto e me dizia a cada dez minutos. O que você tem a perder? Se não der certo, você dá a volta e pronto, estará tudo ali, como você deixou. Por via das dúvidas, vi que haveria um voo de volta de Guarulhos para Curitiba no final daquele domingo cinza. Mas não precisou, pois não fiquei no Terminal 2. Puxei minha mala pelos restaurantes, cafés e livrarias abertos no aeroporto mais movimentado do Brasil, com filas para despachar malas para cidades no pico da montanha: Fortaleza, Recife, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Belém. Cheguei ao Terminal 3 deserto. Uma luz no fundo daquele enorme vazio indicava que o guichê que buscava já estava aberto. Cheguei ofegante, inseguro. Já posso fazer o check in? Posso viajar? Posso ir embora daqui?

A FUGA

Havia 4 voos no domingo dia 28 de junho partindo do Terminal 3 de Guarulhos. Embarquei na Air France. Fugi para Paris. Há 150 anos, um italiano louco fugiu no sentido inverso ao meu, do Vêneto para a América do Sul. Casou-se com outra italiana que havia vindo antes e deles herdei 25% do meu DNA. Por acordos entre países e regras de ancestralidade, ganhei o direito a carregar um passaporte cor de vinho onde está escrito Unione Europea. Com esse passaporte abriu-se magicamente a fronteira, fiz a egípcia e passei despercebido como mais um cidadão daqui, sem o rabo preso às mais altas taxas de infecção de covid do planeta. Troquei a janela com vista para o Parque Barigui por uma janela com vista para o 10º arrondissement de Paris. Agora vejo os vizinhos trocando de roupa e escuto o pio das pombas que sobrevoam a Place de la République. Estou fazendo minha quarentena voluntária para os que chegam de fora da União até sair o resultado do exame de covid que fiz hoje cedo. Mas se quiser sair franceando por aí, não há Napoleão que me impeça. Vive la France.

Todos os voos internacionais de GRU

O PRIMEIRO DIA

Ontem não conta pois cheguei vesgo de jetlag, de tensão acumulada e passei o dia em casa, ou melhor, no meu quarto na casa do meu amigo Alan, aquele com a janela do pio das pombas. Precisava de um briefing sobre as novas regras sociais daqui. A boa notícia é que há vida após a quarentena. A primeira delas é que o Partido Verde foi o que teve a melhor performance nas eleições municipais do domingo, forçando o presidente Macron a seguir um caminho mais écolo. A outra unanimidade é que o governo francês tomou as melhores medidas que poderia ter tomado quando viu o desconhecido chegando. Houve erros, como em todos os lugares, mas a população colaborou e a ciência teve prioridade. As medidas foram claras. A oposição não se intrometeu. Foram 56 dias de um lockdown severo, do qual ainda não se tem clareza das consequências econômicas. Foram mais de 30 mil mortos, muitíssimos deles gente de idade em casas de repouso.

Máscaras devem ser usadas no transporte público.

Não vou negar que tem muita coisa que fechou e não vai voltar, mas na minha caminhada matinal até o laboratório de exames, Paris está bem normal, bem Paris. Os cafés estão com as mesas na calçada e, melhor ainda, tem gente tomando café, pastis e Perrier nas mesas. O uso de máscaras de proteção para caminhar na rua não é mais obrigatório, mas para entrar nas lojas, padarias, mercados e restaurantes, tem que estar de máscara. Claro que para beber o Beaujolais ou fumar o Gitanes dá para tirar a máscara, mas caso queira ir à toilette, tem que vesti-la. Por isso o mais comum na rua são as pessoas com máscara no pescoço, que no Brasil tanto me irritavam. Como a regra aqui é põe e tira, realmente facilita a vida deixar a máscara a postos. Eu, para simplificar, coloco a máscara e não tiro.

Exame de covid de graça, só com receita médica e agendamento. Aqui se chama teste de despistagem. Paguei uma taxa e entrei na fila dos exames da manhã de hoje. Enquanto esperava, fui caminhando até a Notre Dame (que é um canteiro de obras desfigurado), dei a volta na Ile de la Cité e tudo está bem vazio. Não tem fila para tomar sorvete Berthillon. Paris está com cara de cidade de interior. As calçadas voltaram a ter espaço para caminhar. Se escuta menos inglês e chinês na rua.

Deve estar sendo devastador para os hotéis, guias e todos aqueles tradicionais lugares armadilha para turista. Imagine que Paris intra-muros, onde fica tudo o que interessa, tem cerca de 2,5 milhões de habitantes. Só o Museu do Louvre recebe anualmente 9,5 milhões de visitantes. São cerca de 19 milhões de turistas estrangeiros a cada ano, sem contar os franceses, nas calçadas, no metrô, nos museus, nas lojas, nos hotéis, nos restaurantes, nos bares, nas galerias, fazendo xixi, gerando lixo. Eles desapareceram, pelo menos por enquanto. O avesso ao impacto econômico é o prazer de ver, pela primeira vez em décadas, a cidade sem a fantasia de Cidade Luz, capital mundial da moda, da gastronomia, do luxo. Hoje, Paris é simplesmente, Paris. Aguardo ansiosamente o email do laboratório para confirmar que minhas narinas e vias aéreas superiores estão descontaminadas para poder amar Paris à la folie. À la prochaine.

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