De Maceió a Olinda

🇧🇷 Este relato saiu na revista TOPMagazine pelos idos de 1999. Foi um artigo para a editora de viagens sobre um roteiro que fiz sozinho de carro entre Maceió, no Alagoas, e Olinda, no Pernambuco. Transcrevi o texto tal qual saiu impresso na revista. Lembrando que quem o escreveu foi o jovem Vicente de 24 anos. Quanto às fotos, eu tirei fotos de fotos, por isso não estão 100%.

Folhas soltas da matéria que estava na revista TOPMagazine dos anos 1999 e lá vai pedrada.

PRAIAS PRA QUE TE QUERO!

Resolvi encarar o espírito desbravador nacional e fui conhecer um parte do litoral do Nordeste de carro, entre Maceió, em Alagoas, e Recife, em Pernambuco. Há tempos vinha recebendo mensagens subliminares de praias paradisíacas e lagostas a preço de frango nos cadernos de turismo de diversos jornais. As capas das revistas de viagem também abandonaram as Torres Eiffel e Coliseus por praias, ilhas e coqueiros da nossa costa. Precisava ver até que ponto todo esse fuzuê era verdade.

O que é que o Nordeste tem? Jangadas, tem.

Desembarquei em Maceió em uma tarde de sol escaldante, céu azul e muita brisa. Todos na cidade pareciam não ligar muito para estes três elementos tão essenciais e até certo ponto exóticos para um sulista. Quando eu vi a cor azul-calcinha do mar, fiquei bestificado. Gastei quase um rolo de filme inteiro com fotos de ondas e espuma. Mas o bom de Maceió são as praias, tão bonitas e tão parte da cidade. Há bons hotéis e restaurantes em frente ao mar. Para quem não gosta de praia no meio do nada, Jatiúca e Pajuçara são excelentes, têm calçadão para o footing diário e inúmeras barraquinhas de coco e tapioca. Passei a entender por que o Collor fez aquele super jardim na casa da Dinda em Brasília. Ele queria era recriar um pouco da atmosfera de Maceió.

No dia seguinte, já na AL-101 rumo ao litoral norte, fiz um pinga-pinga em todas as praias recomendadas no Guia 4Rodas e pelo guia do Ricardo Freire. Todas são lindas, com mar azul-turquesa, areia cor de farinha Pinduca (nas duas versões), cheias de coqueiros e vazias de gente. Uma delícia para caminhar, mergulhar (a água sempre está morna) e ficar horas observando o horizonte. Por isso, o melhor é fazer a viagem durante a baixa estação, para sentir que a praia é só sua! A 42 quilômetros de Maceió a AL-101, que até então segue a costa, entra para o interior. Para os que gostam mesmo de natureza exuberante (e praias ainda mais belas), o quente é sair para a estrada de terra batida (que continua seguindo o litoral), pegando a balsa que cruza o Rio Santo Antônio Grande para a Ilha da Croa (que não é ilha, e sim uma península). Em um espaço de 15 quilômetros, entra a balsa e o rio, o Camaragibe, há três praias de tirar o fôlego: Barra de Santo Antônio, Carro Quebrado e do Morro. Sejam bem-vindos à nova Rota Ecológica.

Igrejinha da Praia de Carneiros.

Quando começou a escurecer (e escurece cedo nesta época do ano lá no Nordeste) estava já do outro lado do rio Camaragibe, em São Miguel dos Milagres, bebendo caipiroska de cajá na Pousada do Toque. Dica quentíssima do guia do Ricardo Freire, esta pousada é uma delícia. Os quartos são amplos e arejados e ficam a poucos metros do mar. Há cabanas com redes, sofás e piscina bem perto da areia. O melhor da pousada é a cozinha, pois o dono já foi chef em Maceió e devora assiduamente livros de culinária. O serviço é cordial e sorrisos brotam até nas árvores! Deu vontade de ficar por lá pelo menos até o Natal.

As galinhas de Porto de Galinhas.

Como meu itinerário ainda tinha outras 100 praias para ver já na manhã seguinte, peguei outra balsa (essa sem os chatos guias-mirins da Ilha da Croa) e deparei-me com outros dois lugares de onde Eva poderia mandar vários cartões postais. Barreiras do Boqueirão e Japaratinga, que estão perto de Maragogi, outro lugar imperdível! Entretanto, neste trecho, São Pedro não perdoou (talvez a brincadeira com Eva o tenha magoado), e choveu a cântaros, impedindo-me de visitar as famosas galés a seis quilômetros em jangada mar adentro (queria ver o carrinho flutuante de sorvete da Kibon). Tive que seguir direto para Tamandaré em Pernambuco para visitar a recomendada praia de Carneiros. Neste ponto já tinha visto tantas praias, que minha viagem estava começando a ficar parecida com os roteiros Soletur pela Europa, aqueles de 20 países em 15 dias.

O que é que o Nordeste tem? Jangadas outra vez, tem, tem!

Para diminuir o ritmo, resolvi dormir duas noites em Porto de Galinhas, Pernambuco. Adoro as praias desertas e selvagens, mas prefiro uma certa estrutura para poder jantar e ver gente (um pouco, pelo menos). Por isso Porto foi a parada perfeita. Durante a alta estação esta praia deve ser um inferno, pois há uma infinidade de hotéis e pousadas. Imagino que deve haver até congestionamento de jangadas. Fora da temporada, Porto de Galinhas é um paraíso domesticado. O mar continua com a cor maravilhosa, há piscinas naturais a 10 metros da praia, restaurantes com música ao vivo na beira do mar, lojas, artesanato e praias vazias a 10 minutos, tanto ao norte quanto ao sul.

Peixes a olho nú pertinho da praia. Eles ficam “presos” nas pedras quando a maré baixa.

Para os fanáticos em novidades, é em Muro Alto, pertinho do centro de Porto, onde foi inaugurado o Nannai Beach Resort, com certa atmosfera do Tahiti e Bali. É caro mas é bonito e ideal para casais apaixonados. Para os que gostam de levar a família toda junto, o melhor é ficar no Summerville, ao lado do Nannai, que tem maior infra. Já os viajantes inveterados vão gostar de Maracaípe, onde se reúne a galera do surf e da scuba.

Nannai

Depois de tantas praias com o selo de qualidade ISO 9000, terminei a viagem em Olinda, o que deu um toque histórico. Tanto Recife quanto Olinda são cidades interessantíssimas, terra de maracatus e mamulengos. Olinda é um monumento à colonização portuguesa, parecendo-se com certos bairros de Lisboa. Há pousadas charmosas e restaurantes regionais deliciosos. Passear pelas ruelas e ladeiras da cidade é fazer uma viagem aos livros do ginásio. Passado também se visita no bairro do Recife Antigo, onde se nota a presença dos holandeses em nossa colonização, tanto na arquitetura quanto na animação noturna. Sobrando Sundown, dá para passear uma manhã toda pela Praia de Boa Viagem, que é a Ipanema nordestina, com suas piscinas naturais e um mar bem mais bonito, apesar dos tubarões ocasionais.

Cores de Boa Viagem no Recife.

Curvas de Boa Viagem, no Recife.

Surpreendente Instituto Ricardo Brennand, no Recife.

Passeio imperdível em Recife é a visita ao ateliê do escultor e ceramista Brennand. Fica um pouco longe da cidade, numa zona de mata muito bonita. Ali Brennand pôs toda a sua criatividade em prática, criando um ambiente de fantasia e texturas único, misturando museu, fábrica, parque e mausoléu. Há uma revenda de seus azulejos e esculturas para quem se empolgar. Vale lembrar que muitas vezes o próprio Brennand está de visita no local. 

Voltei impressionado e encantado com o Nordeste. Deu vontade de “quero mais”. Em quase todas as praias havia sempre uma pousada ou hotel bons, restaurantes deliciosos, muita água de coco, sol e mar à vontade, pessoas simpáticas e bom treinadas para sorrir ao turista. Há praias e cidades para todos os gostos, além de hospedagem e refeições para todos os bolsos. Vale a pena trocar férias enlatadas por um roteiro recheado de jerimum, tapioca e macaxeira. Os franceses, portugueses, italianos e alemães já fazem isso há anos!

Não há maior clichê do que dizer que Olinda é linda. Mas é que ela é realmente linda, essa Olinda!

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