Domingo radioativo em Chernobyl

Chegada em Prypiat, fundada em 1970.

Uma das minhas lembranças mais antigas é do dia em que a usina nuclear de Chernobyl explodiu. Eu tinha 11 anos. Na verdade, a lembrança é do dia em que vi na televisão a notícia, dias depois do acidente, já que a União Soviética demorou para contar o que havia acontecido. O que mais me apavorou foi a tal nuvem de radiação que se espalharia pelo planeta e que já havia contaminado a Escandinávia. Não sei se é falsa memória, mas tenho a imagem de um campo com milhares de renas mortas na Suécia ou Finlândia. Na época nem pensei nas pessoas que moravam perto da usina, afinal, tudo o que existia do lado de lá da Cortina de Ferro era bastante desconhecido. Era como se na União Soviética não morasse gente.

Anos depois “descobri” que Chernobyl ficava na Ucrânia quando li o livro “Wall to Wall”. A autora, uma judia americana de origem ucraniana, faz uma viagem de trem da Muralha da China até o Muro de Berlim. Ela queria visitar Chernobyl, mas a zona ainda não estava aberta para turistas. O fato da usina ter “aparecido” para mim na Ucrânia e não em um longínquo lugar da União Soviética acendeu uma luz no meu radar de viagens.

Em 2017 li “Vozes de Chernobyl” da bielorrussa Prêmio Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch. Fiquei impressionado com tudo o que aconteceu na Bielorrússia, o país mais afetado pela nuvem de radiação, no pós-acidente. Apesar da usina estar na Ucrânia, Prypiat, a cidade modelo criada pelos comunistas para abrigar a elite científica soviética fica a poucos quilômetros da fronteira, mais perto da Bielorrússia do que de Kiev, a capital da Ucrânia. Recomendo o livro, que inclusive foi fonte importante para a série da HBO (a que ainda não assisti).

Quando resolvi passar um tempo de amor e paixão em Istanbul, sobre o qual já contei por aqui, imaginava uma romântica viagem de barco de Istanbul até Odessa, depois em trem pelas férteis planícies da Ucrânia, onde chegaria, finalmente, em Chernobyl. A viagem rolou, mas de maneira bem prática, com um voo de duas horas entre a Turquia e a Ucrânia. O “passeio” até Chernobyl é vendido por várias agências de turismo em Kiev e se faz em um dia inteiro. Tem que levar o passaporte e ir coberto da cabeça aos pés (não rola bermuda nem camiseta).

Em duas horas de viagem pelo interior da Ucrânia a gente entra na zona de exclusão de Chernobyl, fechada há anos e que agora dá para visitar com estes grupos oficiais. É meio bizarro pois tem gente que acha que está indo para o Afeganistão e vai usando roupas de guerra, bandanas e afins. Eu fui de gente normal mesmo. No caminho o pessoal passou um documentário sobre o acidente onde falou que ainda há níveis significativos de radiação na área. Daí a gente chega lá e vai para o restaurante local almoçar. Confesso que fiquei meio paranoico de comer ali. Pena que não tinha um contador de radiação para medir a radioatividade da sopa e do pão. Mas fui na confiança de que não nos dariam alimentos contaminados, né?

Como era. Como é.

A visita é bem bizarra. Não dá para ver a cidade, pois as árvores tomaram conta do lugar. O guia mostra fotos de como era Prypiat antes do acidente. Era uma cidade confortável. Os oficiais queriam que famílias jovens de cientistas fossem para lá. Já havia gente na União Soviética que não confiava muito na segurança do local, mas eram atraídas pelos altos salários e pelos supermercados de prateleiras cheias (coisa rara na URSS). Então a gente vai no mercado, na escola, no parque de diversões, na casa das pessoas. Tudo estacionado em 1986 com árvores e raízes por todos os lados. Se fosse um lugar tropical ficaria parecido com Angkor Wat, no Camboja.

Sem a interferência humana a natureza é pujante!

Também vimos a nova construção do galpão que encobre toda a usina. É uma coisa enorme, como um estádio de esportes, talvez o maior do mundo. Continua vazando urânio e radiação, mas por hora não há grandes riscos da coisa explodir novamente, como até há poucos tempo. Ao longo do trajeto a gente para em zonas radioativas e o guia, com um contador Geiger, mostra como certas árvores ainda têm muita radiação, ou a roda-gigante, ou o chão (a gente é avisado que não pode sentar no chão). O estranho é ver as pessoas fazendo caras e bocas para selfies, fingindo que está morrendo ou se contaminando. Não achei muita graça, mas eu estava completamente absorto com tudo o que vi, achando até meio solene a visita.

O novo galpão que cobre o reator foi construído com ajuda internacional para evitar uma nova explosão.

A piscina mais famosa da Ucrânia.

O lugar mais legal de todos foi uma mega-estrutura que funcionava como radar contra mísseis americanos. Não tem nada a ver com a usina e ficava ali porque a região era um front da Guerra Fria. Deve ter custado o olho da cara para os soviéticos e não chegou a funcionar direito, pois logo que ficou pronto a URSS derreteu. Fico imaginando alguém apertando o tal botão nuclear vermelho e o fim do mundo começando. Quem teve a infância nos anos 1980 conviveu com a tal ameaça do botão nuclear. Eu chorava só de ver o cartaz do filme “O Dia Seguinte”. Por isso me impressionei tanto ali.

Radar anti-mísseis americanos.

A estrutura é enorme, como um prédio de 20 andares.

Na hora de ir embora todos passam por um contador de radiação. Se apitar, é preciso deixar as roupas contaminadas ali (nas instruções do tour eles avisam antes e eu levei uma muda de roupas extra, just in case). Não apitei e deu um enorme alívio de sair dali, apesar de ter adorado visitar o lugar. Voltei para Kiev feliz da vida.

Liberação na saída da zona de exclusão. Se apitar, tem que tirar a roupa.

ps: fui chafurdar um pouco melhor na minha memória de 1986 e mais antigo do que o desastre de Chernobyl foi a explosão do ônibus espacial Challenger, na Flórida, em janeiro. Chernobyl foi em abril. Visitei Cabo Canaveral em 1988, mas era pequeno demais para solenidades e também porque nem se compara uma nave espacial explodindo sobre o Atlântico com uma usina nuclear derretendo na Europa.

pps: Em outro dia conto sobre Kiev, ok?

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