Enquanto isso na Índia

Strike a pose. Not.

🇧🇷 Nos idos de 2000, minha atual sócia, Fernanda Ávila, era editora da TOP Magazine, uma revista que nasceu em Curitiba e hoje é destaque no cenário editorial nacional. Havia uma coluna de turismo chamada “Enquanto Isso” para a qual escrevi sobre algumas de minhas viagens. Quase 20 anos depois, redescobri esses textos e resolvi postá-los aqui. Antes de ler, vale lembrar que o Vicente que escreveu era outro, que minha visão de mundo engrandeceu, que aprendi muita coisa nova, tanto sobre o mundo e a vida quanto sobre mim. Também sou menos fresco e mais tolerante. Minhas viagens são mais raiz e menos Nutella kkk.

O texto a seguir é sobre a minha primeira viagem à Índia. Foi em 1997. Na época eu morava e estudava na Suíça e voei de Zurique para Nova Délhi. Fui de trem para Agra, de ônibus para Jaipur e ainda fui a Kathmandu, no Nepal. Foi uma viagem de mochila. Programei tudo por fax e telefone com uma agência de viagens indiana. Em Délhi eu me hospedei em espeluncas do Lonely Planet na região de Connaught Place. Já em Agra consegui ficar num hotel chamado Trident, que acabava de inaugurar (hoje é uma rede enorme) pagando quase nada e usufruindo da piscina. Em Jaipur fiquei no Rambagh Palace, que estava em reforma e me deram uma diária amiga num quarto barulhento e com andaimes na janela. Viajar nessa época era bem diferente de hoje em dia. Não havia tanta informação, afinal, nem a internet existia direito. Viajava-se com mapas de papel, guias cheios de anotações e um maior espírito de aventura. Vou deixar você ler o texto antes de filosofar a respeito do que pensei enquanto o lia, duas décadas depois de escrevê-lo. Vamos lá:

Visto indiano das antigas, emitido no consulado de Genebra

ENQUANTO ISSO NA ÍNDIA…

Queria fazer tudo da maneira mais aventureira possível, afinal o sonho de anos estava tornando-se realidade: a viagem para a Índia! Parecia que uma grande transformação iria acontecer dentro de mim. Durante meses li tudo o que caiu nas minhas mãos sobre Shiva, Rio Ganges, Vishnu, política indiana, civilização dravídica, carma, Gandhi, Caxemira, Nehru, Taj Mahal e até música popular de Bombaim. Sentia-me totalmente preparado para mergulhar de cabeça naquele país místico, nem que fosse para voltar com outra de elefante no lugar. No aeroporto de Zurique comecei a ter enjôo de estômago. É claro que culpei as milhares de vacinas que tive que tomar, as pílulas para prevenção de malária ou a ressaca do dia anterior. Na verdade era nervoso, insegurança, vontade de chorar, de parar ali mesmo e tomar o avião ao lado para Los Angeles. Eram uma decolagem e um pouso que me separavam dos faquires, turbantes e curries; por isso deixei de frescura e embarquei naquele voo que parecia fretado pela equipe de filmagem de “Gandhi”, pois a maioria das pessoas estava à caráter.

A Índia não é um lugar fácil. Além dos problemas comuns de viagem, ha um adicional: o “catastrofismo” humano. Há gente demais, calor, pobreza, riqueza, línguas, religiões, deuses e lugares para visitar. A gente fica sem saber no que prestar atenção, com milhares de pensamentos ao mesmo tempo. Tudo choca. As cidades têm um cheiro forte, há muita gente sem perna, sem braço, sem identidade. Muitas de nossas referências existenciais não funcionam. As construções novas, as ruas, tudo é mal feito, mal cuidado, dando a impressão de auto destruição. Ao lado de palácios inacreditáveis há favelas mais inacreditáveis ainda. O choque cultural é pesado, não passa nem depois de voltar para casa.

Talvez a perda de referências básicas aconteça porque as marcas e lugares tão comuns no mundo ocidental não emplacaram por lá (ainda). Obviamente que Coca-Cola existe (tem até Coca-Cola falsificada) mas o que se toma quase sempre são as tubaínas. Os fast-foods não são nem McDonald’s, nem Burger King. Os jovens usam jeans mas sem tênis. Os carros são de marcas locais e não se veem shopping centers mas sim bazares.

Nova Délhi antes do smog atual

Os sucessos do cinema não vêm de Hollywood mas de Bollywood (fica em Bombaim). Os hotéis de luxo não são Marriott ou Hilton mas Taj e Oberoi. Nem Deus é o mesmo pois lá eles são muitos e ainda brigam entre si. É tamanho o deslocamento da nossa vida comum que se passa a achar que Curitiba realmente tem um quê de Paris. No entanto, quem decide ir para lá é porque quer fortes emoções. Nem se fizessem uma Índia no Epcot daria para transmitir as coisas que se veem e que se sentem lá. Ver o nascer do sol no Taj Mahal, sentir na pele o calor infernal, ter diarreia com a primeira refeição típica, viver assediado por motoristas de riquixá e ver um show com música no Forte de Jaipur são algumas “viagens” que se têm em uma viagem ao subcontinente. O mais interessante ainda é se virar à Indiana (Jones) para conseguir passagem em um trem, lugar num hotel barato ou encontrar um restaurante simpático.

O roteiro padrão para marinheiros de primeira viagem é fazer o Triângulo Dourado, que inclui Délhi (nova e velha), Agra (para ver o Taj Mahal) e Jaipur (capital do desértico Rajastão). As três cidades ficam geograficamente perto mas infinitamente distantes em termos culturais. Nota-se a fisionomia das pessoas mudar de um lugar para o outro e até o sotaque do inglês muda. Já uma viagem completa incluiria Varanasi, o centro da religião hindu, Bombaim, a São Paulo indiana, Goa, uma ex-colônia portuguesa e outros milhares de lugares. Na verdade a Índia não é como ir ao restaurante e pedir o menu completo, daria congestão. O melhor é ficar no menu degustação. Seja qual for a escolha, um fato é inevitável, a viagem pela Índia nos faz descobrir muito sobre nós mesmos, tanto em termos existenciais como futilidades cotidianas.

Uma das grandes descobertas que fiz foi que amo piscina, milk-shake a ar condicionado. Depois de cada dia de “desbravamentos”, o hotel se transformava em um oásis. Mergulhar na piscina gelada era melhor do que cheirar lança-perfume. Tomar milk-shake então, era quase orgásmico, uma delícia. Quase fui tomar vacina outra vez quando vi um velho de bicicleta com um barril de leite todo amassado na garupa levando-o para algum lugar misterioso. Imaginei que aquele leite, que não deveria vir nem de perto nem de uma vaca sagrada, seria transformado em milk-shake depois de quilômetros sob o sol.

Nesta viagem aconteceram coisas interessantíssimas. Estava no ônibus indo de Agra para Jaipur. A viagem de cerca de 300 km leva intermináveis seis horas. Do meu lado sentou-se um menino que deveria estar saindo das filmagens de “Sete Anos no Tibet”. Descobri que ele era um monge tibetano de verdade e estava a caminho de Dharamsala, no Himalaia. Conversamos um pouco até ele começar a rezar. Nos comunicamos por carta até hoje e sei que, lá longe, tem um monge que reza por mim. Descobri também que a música indiana serve para deixar as pessoas loucas. Qualquer um que escute uma fita por mais de meia hora vai com certeza entrar em transe e achar que pode ver Jesus. Até avião, o que foi sequestrado antes do Natal passado, eu peguei, só que no dia em que eu voei, a única coisa sequestrada foi a minha bandeja de lanche, pois esqueceram de me servir. Quando reclamei me disseram que tinha acabado.

Jantei várias noites no escuro, pois havia apagões quase todos os dias. O mais engraçado de tudo é que enquanto eu estava lá, me dava uma vontade enorme de vir embora. Chega uma hora e ninguém aguenta mais ver tanta miséria e MTV indiana. Ma assim que cheguei em casa, passei a lembrar de tudo e me deu muita vontade de voltar. Pena que a Índia não seja perto. Bom é saber que ela está lá, guardada como se fosse uma caixa de surpresas. É um destino pouco popular, mas recomendável a todos, especialmente àquelas pessoas que estão em meio a uma crise existencial. Ou ficam por lá em transe ou voltam para casa achando que tudo é fácil de resolver, basta meditar. Realmente, a Índia faz milagres.

nos anos 1990 a gente fazia selfie assim…

ENQUANTO ISSO, 20 ANOS DEPOIS…

Meu nervosismo antes de embarcar era porque estava indo sem contar para os meus pais. Só alguns colegas da escola sabiam da viagem. Falei que as aulas acabariam duas semanas mais tarde do que na realidade para não ser “forçado” a vir para o Brasil. Mas antes de embarcar eu liguei e avisei. Foi uma ligação bizarra, que durou 5 francos suíços (na época as ligações internacionais eram caras e curtas). “Oi mãe, tudo bem? Estou no aeroporto de Zurique. As aulas acabaram antes do previsto então resolvi dar uma viajada antes de ir para casa, ok? Pra onde? Pra Índia. Não, não tem problema, está tudo bem. Ligo quando chegar lá, ok? Quando? Volto em… (acabou a moeda, caiu a ligação).

O choque cultural daquela época já não tenho mais. Vivi em Dubai, voltei à Índia e turbantes e bigodes já não me assustam mais. Viagens servem para isso, para que o que nos choca hoje virar lugar-comum amanhã. Acredito que se as pessoas viajassem mais para lugares fora da zona de conforto, o mundo seria um lugar melhor. Haveria maior entendimento do que é ser diferente, pois, no final das contas, somos todos iguais. Também não tenho mais diarreia com comidas apimentadas nem faço questão de ar condicionado. Só continuo adorando piscina em destinos quentes, para um mergulho refrescante no fim do dia e não para ficar de molho tomando sol.

A Índia se desenvolveu muito nos últimos 20 anos. Hoje há redes internacionais e locais de fast-food e de hotéis. Há ótimos restaurantes. Dá para comprar passagens de trem e fazer o visto online. Novos terminais de aeroportos foram inaugurados. Há uma dezena de companhias aéreas low-cost. Nova Délhi tem metrô. A maior parte dos turistas nos hotéis, monumentos e museus é de indianos. Os jovens seguem usando jeans, a maioria com chinelos, mas também de Nike e Adidas. Ainda existe muita pobreza, muita sujeira, muito barulho, mas nota-se que as coisas caminham para frente. Estou longe de dizer que a Índia é um lugar idílico e jamais moraria lá, mas quando penso que por aqui há muita coisa que segue igual, 20 anos depois, dá uma dor no coração.

Hoje faço meditação e ioga. Sou vegetariano. Levo muito da Índia dentro de mim. Pode ser que não tenha me dado conta em todo esse tempo desde a primeira noite em Nova Délhi, mas a Índia realmente me transformou.

Espero que tenha gostado do relato e dos pensamentos. Há outros textos da série Enquanto Isso que virão por aqui.

Related Posts

Meus dias em Tóquio, por Julia Bufrem

Ilhas Faroe em imagens