Escrever com restrições

🇧🇷 Fiz um curso incrível chamado de Literatura Potencial. As premissas potenciais são baseadas em decisões de um grupo literário surgido na França chamado de Oulipo. Um dos escritores oulipianos mais conhecidos é Raymond Queneau. O que eles criaram foram certas restrições para ajudar na criatividade na hora de escrever. Por exemplo: escrever sem uma vogal. Em um livro chamado O Sumiço, Queneau não utiliza nenhuma vez a vogal “e”. Dá também para escrever usando todas as letras do alfabeto em ordem, dá para fazer mil malabarismos divertidos que, no final, levam o texto para lugares inesperados. Seguem aqui algumas das lições do curso:

MONOVOCALISMO MODIFICADO

“A” presente em todas as palavras

Alzira abria as janelas da casa todas as manhãs para ventilá-la. A casa ficava na esquina da avenida Itatiaia, na ribanceira da rua Itapetininga. Habitava solitária naquela casa há anos, abandonada.

“E” presente em todas as palavras

Ernesto escolheu escapar de seu internato sem levantar nenhuma suspeita. Esperou aquela tarde de segunda e correu sem arrepender-se. Estava livre, finalmente, pensou emocionado.

“I” presente em todas as palavras

Itatiaia, Itapetininga, assim repetia. Foi caminhando ribanceira acima. Ficou estático, esquina quieta. Abriu-se veneziana. Alzira, impassível, mirou incrédula. Noivo surgiu. Estive internado, disse, abrindo sorriso. Vim assim, amiúde.

“O” presente em todas as palavras

Ouvia os sinos tocarem. Os convidados homenageando os noivos. Momentos magnânimos dos dois amados, unidos no sagrado matrimônio depois dos anos separados. Choravam emocionados. Ernesto soluçava.

“U” presente em todas as palavras

Um caso único numa população ultrajada, numa ditadura duradoura. Muitos outros nunca puderam buscar sumidos. Aguardavam mudança. Urnas? Uma revolução? Ninguém consegue presumir.

ABECEDÁRIO

Abigail brigou com Daniel e falou: “Gato, há indícios, já”. Lia muitas novelas orgiásticas, pois queria regalar-se sozinha, toda umedecida, vexatória, xamânica, zombeteira.

Amava banana, chocolate, damasco e farinha. Gastava horas impensáveis jogando levedura mourisca na ovalada panela. Quando, repentinamente, sentiu toda umidade voltar, xaropeou ziguezagueando.

Antes buscava carinho. Depois, emoção. Francamente, gostava. Henrique insistia jantar lentamente. Mastigava nervosamente. Ovos, presunto quente, requeijão, sal. Tudo uma vez. Ximenes zombava.