Lagos Andinos com Emoção

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Puerto Varas na região dos lagos chilenos, onde o clima muda a cada 20 minutos, à la Bandnews.

🇧🇷 Parecia que o mundo estava prestes a acabar. Os funcionários da Latam do aeroporto de Mendoza, na Argentina, faziam de tudo para a fila do check-in acabar pois, em alguns minutos, começaria a final da Copa Libertadores. Só quem mora em países fanáticos por futebol consegue conceber a parada total da nação para uma partida. Nem o coronavírus tem esse poder. A final com River Plate e Boca Juniors paralizou a Argentina. Consegui meu cartão de embarque, uma cerveja e um sanduíche de pão de migas segundos antes do apito inicial. Que estresse.

PARADA INESPERADA

Não era para eu estar ali. Meu destino final era Puerto Varas, no Chile. Um carro alugado me esperava no aeroporto de Puerto Montt. Um hotel carinhosamente escolhido, com vista para o vulcão Osorno, e planos de correr no fim da tarde na floresta patagônica também. Mas uma turbina quebrada me jogou feito maré alta naquele terminal superlotado. Quando me sentei na mesa com o sanduíche e a cerveja já fazia horas e horas que estava transitando de avião para sala de embarque para avião, para fila de voucher, para reprogramação de voo, para fila de check-in. Já não aguentava mais ver gente gritando, exigindo avião de reposição, furando fila, se amontoando no único café da ala de embarque, que já não tinha mais nem uma medialuna pra vender. Drama latino na veia.

Um rapaz se aproximou da minha mesa antes do primeiro gol e perguntou se poderia sentar ali, já que todas as outras estavam cheias de torcedores fantasiados de seus respectivos times. Será que aquela era a única televisão em Mendoza? Disse que sim, claro, mesmo com meu espírito curitibano. Conversamos. Vi que ele não estava dando a mínima para o jogo e isso já me interessou, afinal, sou bem preconceituoso e acho que homens que desdenham futebol são todos do meu time. Jorge era uruguaio, trabalhava em uma vinícola de Montevidéu e veio passar o fim de semana em Mendoza para visitar amigos da faculdade de enologia. Plim, plim, plim. Preencheu vários pontos no meu radar da pegação. Não era muito bonito, mais para charmoso, barba por fazer, nariz masculino, roupa arrumadinha (devia estar me achando um maloqueiro) e bom de conversa. Mas se na minha cabeça eu já preparava nosso noivado em José Ignácio, ele não dava nenhum sinal de viadagem. Vamos dar uma volta?, perguntou.

Estávamos no mesmo voo para Santiago. Eu, vindo de São Paulo, fiz aquela escala imprevista em Mendoza. Ele, partindo dali, faria conexão no Chile para o Uruguai. Veja só! Saímos do terminal pois ele queria fumar um cigarro (pronto, todos os pontos perdidos). Me contou que aquela mala enorme estava cheia de vinhos (eu achei que era um look para cada dia da viagem) e que se eu fosse para Montevidéu me faria um tour da vinícola da família, onde até a avó ainda trabalha.

Estava um pouco incomodado com o meu cansaço. Eu cansado sou chato. Meu espanhol se arranha. Não consigo soar interessante, viajado e cosmopolita. Fico mais no pero que si, pero que no. O voo de Curitiba para São Paulo tinha saído às 6 da manhã. Eu levei minha mãe a um casamento, deixei-a em casa e dormi só duas horas antes de sair de casa. Em Guarulhos descobri que pararia em Mendoza, o voo mudou de portão umas três vezes, o pneu do avião estava furado (antes de embarcar). Quando chegamos em Mendoza ficamos uma hora dentro do avião esperando que arrumassem a turbina antes do despejo no terminal. Depois foram umas 4 horas na sala de embarque esperando uma solução. Quando fiz casinha com as mãos no cigarro do Jorge para o vento não apagar o isqueiro, eu já era um trapo de gente. Mesmo com a cerveja e o sanduíche. Mas consegui soar simpático, apesar de me sentir um lixo por dentro.

Chegamos em Santiago de noite. Fila longa para imigração. Perdemos as conexões e fomos parar num hotel de aeroporto a cargo da Latam. Eu não lembrava mais nem do meu nome, muito menos do Jorge. Qualquer interesse por algo mais caliente já havia se dissipado e a única coisa que me daria muito prazer naquela noite era uma privada e um chuveiro. Não que tenha havido algum sinal da outra parte, estava tudo somente na minha cabeça. Buenas noches, até amanhã. Dormi de roupa, o banho ficou para a manhã seguinte.

Desci para o café. Era o único hóspede ali. Pena, não vou me despedir do Jorge. O transfer para o aeroporto chegaria às 7, eram 6:57 e eu estava a postos na portaria quando Jorge sai esbaforido do elevador, puxando a megamala dos vinhos. Nem tomou café. Às 7:03 já estávamos na van. Prazer em conhecer, esse é meu número de telefone. Hasta luego, boa sorte com o voo! E corri para a ala dos voos domésticos.

Oin… que fófis essas fotos de florzinhas!

LAGOS, FLORESTAS E ALEMÃES

Quando finalmente pousei em Puerto Montt, o carro alugado já não estava mais disponível. Cheguei  24 horas atrasado. Aluguei uma miniatura Suzuki de uma locadora local com o combinado de deixá-la com o tanque cheio na garagem da rodoviária de Puerto Montt dali a dois dias. A chave eu poderia deixar em cima do pneu esquerdo dianteiro. Ai meu Deus. Onde posso trocar dinheiro? No hay. Então vá até Puerto Varas pela estrada secundária para não ter que pagar pedágio. Gracias, e lá fui eu. Finalmente havia chegado. O ar fresco, o cheiro de mato, as vacas e os pinheiros, que paisagem linda. Cheguei no hotel Enjoy e meu quarto já estava me esperando, vazio desde a noite anterior. Logo fui explorar a cidade, que parece um entreposto para expedições polares, ou uma vila entre Munique e Innsbruck, só que com um vulcão enorme na beira do lago, o Osorno, que tem o mesmo formato do Monte Fuji. Era dezembro, verão no hemisfério sul, mas a sensação térmica era escandinava.

Ich heisse Fritz – casas de estilo alpino pululam na paisagem local

Passei os dias a explorar a região no meu matchbox motorizado. Dei a volta no lago Llanquihue com as vilas de imigrantes alemães e seus cafés com kuchen. As casas de madeira têm alma bávara. Será que ainda há fugitivos nazista escondidos nelas? Segui pela estrada coberta de cinza vulcânica até Petrohue, de onde saem as expedições de barco Cruce Andino até a Argentina pelo Lago de Todos os Santos. Caminhei pelas florestas, cruzei com rebanhos de vacas leiteiras, bebi vinho e comi sanduíches de abacate, chamado de palta no Chile. O tempo muda rapidamente. De sol para chuva, para sol, para névoa. O silêncio perto da água é hipnotizante e a cor da água, que vem de gelo derretido, é azul anil. Só não desbravei mais porque estava sozinho e tinha receio de que se me perdesse ou algo acontecesse, morreria abandonado por ali.

Poderia ter seguido viagem de barco até Bariloche, mas não. Gosto de sofrer, por isso fui de ônibus. E para isso tive que voltar a Puerto Montt, que a essas alturas parecia uma metrópole. Embarquei na viagem de 7 horas até San Carlos de Bariloche sabendo que seria mais longa, afinal viagens de ônibus são iguais a obras ou decoração de interiores, sempre levam mais tempo do que o prometido. Para a minha surpresa, a primeira parada do ônibus fui Puerto Varas!!! Depois seguimos para Osorno, onde ficamos um bom tempo parados na rodoviária. Ainda bem que a paisagem do caminho era desbundante. O trecho mais bonito no lado chileno foi a beira do Lago Pueyhue, para onde prometi voltar um dia.

Congestionamento

Verde, azul e branco em Petrohue.

Casas de madeira

Onde estou??? Noruega? Prússia? Chile???

DON’T CRY FOR ME ARGENTINA

Levamos quase uma hora e meia para cruzar a fronteira entre o Chile e a Argentina. Não pudemos entrar com pêssegos, maçãs, laticínios ou salames (eu não tinha salame de qualquer maneira). Comi tudo rapidinho antes de carimbarem meu passaporte (meu coração bate feliz a cada carimbada que levo). Ao entrar na Argentina a paisagem ficou um pouco desoladora. Parece que houve um incêndio por ali há alguns anos e como as montanhas seguram a umidade do Pacífico no Chile, que é verdejante, não sobra água para los hermanos del otro lado. Mas o choque ao chegarmos à Villa La Angostura foi absurdo, pois, de repente, os lagos azuis, a floresta verdejante, os picos nevados e as flores amarelas ofuscam a retina com sua explosão de cores. Parecia que eu estava em um filme. Só que como já fazia mais de 8 horas que eu estava naquele ônibus, a comédia romântica começou a se transformar em suspense. Dónde está Bariloche, señor?

Muchos colores

Ônibus de dois andares, com camas na parte de baixo e serviço de catering no meio da viagem com suco de maçã e bolachas que devem ser comidos antes de cruzar a fronteira.

Lado argentina da fronteira da região dos lagos. San Martín me esperava.

O suspense virou terror quando não consegui trocar pesos argentinos na rodoviária de Bariloche e, com apenas uma nota de 100 dólares, a solução foi ir até o hotel a pé. Tem certas horas que eu não sei porque eu faço essas coisas. Mas fui, carregando a mala para não estragar as rodinhas (ainda bem que nunca levo muita coisa). Uma hora depois eu chegava no Hotel Panamericano. Escolhi me hospedar ali pois foi onde fiquei com meus pais e meu irmão na primeira vez em que estive em Bariloche, no inverno de 1989. Foi quando vi neve pela primeira vez e fiz aquele escândalo normal de criança tropical quando vê tudo branco. O hotel ficou estacionado em 1989. O estrago que 30 anos fazem em um hotel é pior do que o que fazem com a gente. Só que eu estava tão feliz por estar ali que nem dei bola. Não tinha muita gente hospedada e tomei banhos de piscina sozinho. O que mais tinha em Bariloche eram estudantes argentinos em viagem de formatura, que lotavam as ruas e os albergues. Eles saem juntos, com camisetas iguais, cantando músicas a caminho da fila da balada Grisú. Foi nela onde tive meu début, aos 17 anos, no mundo da vodca com aspirina em uma viagem louca, onde ganhei o apelido de Caliente, mas que vou ter que deixar para outro post.

Decidi explorar a região de ônibus. Sou jacú demais para pedir carona. São umas 4 rotas apenas, mas que vão para todos os pontos de interesse. Esperei muito tempo para o número 10 passar. Quando finalmente chegou, tinha que ter um cartão de transporte. O motorista não aceitava dinheiro. Consegui convencer uma senhora a usar o cartão dela e paguei para ela a corrida. O plano de fazer um hop on hop off foi por água abaixo, pois o tal cartão só se vendia na prefeitura. Então que se foda, vou fazer a volta completa do ônibus e quando chegar de volta na cidade eu salto. Consegui um lugar na janela e fui apreciando a paisagem, linda por sinal.

Mais Natureza pra você

Quando o ônibus chegou perto do hotel cinco estrelas Llao Llao, já estava quase vazio. Achei estranho ele entrar no estacionamento do hotel para fazer o retorno. Ah, dali ele voltava para a cidade, pensei. Então o ônibus pára e o motorista pergunta o que estou fazendo ali ainda. Digo que não vou descer, pois quero voltar para a cidade. Ele me manda pular fora. Ali era o ponto final. Mas eu não tenho cartão de transporte. Não é problema meu. Gente, que cara mal-amado! Isso que eu me fiz de idiota para ele se sentir superior. Mas tudo bem. Já que aqui estamos, vamos conhecer o tão famoso Jáu-jáu (é assim que se pronuncia o nome do hotel).

Ao contrário do Hotel Panamericano, que estava vazio, o Llao Llao estava cheio. E foi todo reformado, várias vezes desde 1989. Entrei meio devagarinho, envergonhado. Fiz uma foto aqui, outra ali, fingindo que era hóspede. Fui ao banheiro do salão de convenções (geralmente são vazios e limpos), vi as lojinhas. Um sofá de couro perto da lareira olhou para mim e falou: vem aqui que quero te abraçar. Fui. O abraço rendeu um cardápio de bebidas. Una copa de tinto, por favor. Comecei a ter fome. Vocês servem comida aqui? Si, como no! Pedi raviolis. Quando estava terminando, uma menina sentou do lado e puxou conversa.

Era uma estudante americana, que também não estava hospedada ali. Ela falava compulsivamente. Não era chata, vinha de Filadélfia, estava explorando toda a Argentina para aprender espanhol. Vamos conhecer uma tal floresta famosa, coisa e tal? Ela queria companhia para fazer uma caminhada por parte do Circuito Chico, onde há umas árvores muito antigas. Perguntei se ela tinha cartão de transporte. Yes, of course. Então eu vou.

A caminhada foi longa, mas pelo menos eu garanti a passagem de ônibus de volta para o centro de Bariloche. Ao chegarmos no centro, nos despedimos sem trocar email ou telefone. Fui fazer hora na Librería Cultura para esperar a fome chegar. Saí de lá com três livros e uma fome tremenda. Na Girula Pizzaria pedi uma marguerita, que era para quatro pessoas. Deveria ter pedido para levar a metade para casa, mas baixou o espírito canino e comi tudo, empurrando até a última garfada da borda daquela pizza interminável com meia garrafa de Malbec e água com gás. Não satisfeito, fui cambaleando até a sorveteria Jauja e tomei um sorvete de duas bolas: dulce de leche e chocolate almendrado. Tive pesadelos. Acordei com o sol nascendo, pois não lembrei de fechar as cortinas. Que paisagem linda!

Mira que lindo!

Janela, Jáu-jáu

La Naturaleza salvaje

Com a barriga ainda cheia, consegui ficar sem comer até o fim do dia, quando, outra vez de ônibus, mas agora com a tarjeta de transporte que comprei na prefs, passei pela Vila Suiza e cheguei na porta da Cervejaria Patagônia. Acho que é um dos lugares mais bonitos que já conheci na vida. O restaurante estava lo-ta-do. Sorte que sozinho eu consigo pegar lugar no balcão. O dia estava lindo e a impressão que se tem é de estar em um drone, pois se vê os lagos e montanhas bem de cima. A cervejaria tem um jardim enorme onde o povo fica largado tomando sol. Depois de minha segunda cerveja local, servida em copos de 500ml, me joguei no gramado e dormi profundamente.

Gramado da Cervejaria Patagônia com vista panorâmica dos lagos e picos.

Quando acordei, com grama dentro da orelha, ainda estava levemente etilizado. Aquela vista esfuziante de lagos, bosques e montanhas nevadas me animou para voltar a pé até a estrada principal onde passam todas as linhas de ônibus e não precisaria esperar uma hora na frente da Patagônia. Segui cantarolando e conversando comigo mesmo pela estrada afora. Parecia uma piada de mim e eu dava risada disso mesmo, pois me contei várias coisas engraçadas. Poderes das leveduras fermentadas. Tive que entrar no mato duas vezes para fazer xixi e pensei que alguém poderia me confundir com um assassino em série ou algo assim. Mas cheguei incólume até a estrada principal e não precisei esperar nem 20 minutos pelo ônibus de volta ao Panamericano.

Mãe! Olha eu aqui!!! Cervejaria Patagônia em Bariloche.

PASSAGEM RELÂMPAGO POR BUENOS AIRES

Neste ponto da viagem já tinha me esquecido do Jorge e do perrengue nos aeroportos de Mendoza e de Santiago. Era dia de começar a voltar para casa, com uma paradinha de duas noites em Buenos Aires. O voo da Norwegian Airlines atrasou, que surpresa. Cheguei no Aeroparque e fazia um calor senegalês na beira do Rio da Prata. Fui para um Airbnb perto da casa de minha amiga, que mora há anos no bairro de Chacarita. Ela me levou numa livraria/café maravilhosa chamada Falena. Depois fomos jantar no bar do Home Hotel, em Palermo Hollywood (e depois acham brega falar Batel Soho). Durante a noite caiu um dilúvio sobre Buenos Aires que derrubou árvores e alagou ruas. O mal tempo fez com que a cidade entrasse em convulsão, e claro que meu voo para Curitiba atrasou muito. Foi a viagem dos voos atrasados. Só que em Buenos Aires eu tinha um pote de doce de leite do Duty Free e os livros comprados em Bariloche para me fazer companhia.

Mais um voo atrasado para a lista, só que desta vez um tinha um pote de doce de leite comprado no Duty Free e os três livros comprados em Bariloche para me fazer companhia. É nesses momentos que eu lembro das sábias palavras de Dona Lia Frare, que já devo ter escrito várias vezes nas histórias anteriores e nunca canso de repetir feito mantra, “essas coisas só acontecem com quem viaja”.

ps: em Buenos Aires eu recebi uma mensagem de WhatsApp do Jorge, com um pôr do sol em Montevidéu e uma frase bonita, dizendo que gostaria de ter me conhecido mais a fundo. Fica para a minha próxima ida ao Uruguai.

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