O Mergulho

🇧🇷 Ainda era noite quando o sino tocou. Tentou estender por alguns segundos a sensação de paz e calor debaixo do lençol. Abriu os olhos e tateou debaixo da cama à procura da sacolinha com a escova e pasta de dentes. Saiu do quarto na ponta dos pés para não acordar os outros. Nem mesmo os pássaros, que anunciam a manhã, tinham despertado. Se acostumou à rotina das pias, dos mictórios e das duchas. Hoje saltou a ducha. Decidiu só tomar banho quando estivesse fedido. Enrolou-se no xale de lã – tricotado pela namorada – e foi para a sala de meditação cuidando para não pisar em nenhum inseto no caminho. Gostava da sala quase vazia nessa hora. Os cânticos matinais repetitivos e o cheiro de incenso de sândalo colocavam-no em um estado de intimidade com o universo. Chegava a sonhar acordado. Talvez estivesse dormindo, não sabia. Ficava inquieto somente quando a fome despertava.

Era no café da manhã que via todos os companheiros do retiro. Muitos descabelados e com remelas nos olhos na fila do bufê. Por conta do voto de silêncio, olhavam para os pés ou para os lados. Comiam a mesma coisa todos os dias: iogurte com calda de ameixas, granola e um pedaço de pão com manteiga. Sentia falta de café. Criou uma lista imaginária das delícias que comeria quando voltasse para casa.

Inscreveu-se no retiro por curiosidade e pelo desafio. No fundo, buscava redenção, paz mental, tempo longe da namorada, longe do celular, do chefe chato, dos clientes abusivos. Um tempo só para ele. Aproveitou que tinha férias vencidas e foi tirar férias da vida. Na recepção deixou o relógio, o celular, sua agenda, a carteira e as chaves do carro. Ganhou a cama 42 do dormitório, andar superior do beliche, e uma almofada na sala de meditação, perto da janela. Comprometeu-se a não falar, não matar, não masturbar-se nem fazer atividades físicas.

Nos primeiros dias, quando tudo era novidade e a ligação com o mundo lá fora seguia presente, mantinha na cabeça a contagem dos dias. Pensava no que a namorada estaria fazendo. Contava quantos almoços ainda tinha pela frente no refeitório silencioso. Seguindo seus cálculos, oito. No entanto, como uma névoa que desce discretamente sobre a estrada e, de repente não se enxerga mais direito, acordou com o sino e não sabia mais dizer se era o dia cinco ou seis. Ou quatro. A princípio, foi um susto. Sem saber que dia era, sentiu-se mais ansioso que de costume. Era como, numa travessia, perder-se em alto-mar. Tentou concentrar-se na respiração. No ar que entra, no ar que sai. Tinha fé que em breve tomaria café e que se confiasse na correnteza, ela o carregaria para o lugar certo.

Passou a guiar-se apenas pelo que acontecia a seu redor. O sino, as meditações, as refeições, a noite e o dia. O verde do mato ficou mais intenso. Passou a escutar o bater das asas das borboletas e a sentir quando iria chover. Sentado em sua almofada, com um leve formigamento nas pernas, avisou uma baleia. Ela foi chegando cada vez mais perto até abrir sua enorme boca. Dentro dela, em meio aos dentes e a pedaços de peixe, ele viu uma porta. Sentia ser a porta que buscava há tempos. Mergulhou na língua macia da baleia, agarrou-se à maçaneta e quando a porta se abriu, foi como se um filme em alta velocidade fizesse um replay de todos os momentos felizes de sua vida. Um letreiro de néon violeta dizia: Tudo vai dar certo.

ps: já fiz dois retiros Vipassana perto de São Paulo. Conto sobre o primeiro neste post.

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