Sweet Dreams

??Aperto o play e fecho os olhos. É num rompante que o arranjo inicial faz bum, bum, bum. Respiro a música pelos ouvidos, mas é através da pele que ela entra como flecha direto ao coração. Tchum, tchum, tchum. Tenho novamente dezesseis anos. Danço freneticamente numa pista estroboscópica em meio à massa humana. Tum, Tum, Tum. A luz e a música se misturam junto com a vodka e as aspirinas. Posso voar. Posso ser o que eu quiser. Como uma abelha, voo atrás de néctar. Bum, bum, bum. De boca em boca, a cada raio laser esverdeado que corta o gelo seco, vejo uma cara nova, uma batida diferente. Sweet dreams are made of this. É impossível conversar. Aproveito que alguém aproxima a orelha para tentar me escutar e entro por ali junto com a música e com a língua. De repente o coro toma conta da pista. As luzes vão do verde ao roxo e todos pulam juntos cantando “hold your head up, movin’ on, keep your head up, movin’ on”. Me aproximo das caixas de som de olhos fechados e mãos dadas, enrolado num beijo desconhecido. Sinto a vibração nos pulmões, no abdômen. Tum, tum, tum. Ele me oferece um gole de cerveja morna. Não sei se o que vibra é o coração, o pau duro ou as ondas sonoras sorvidas direto da enorme caixa preta à nossa frente. Somos só um. Eu, ele, as batidas, as luzes, a voz da Annie Lennox. Tum, tum, tum. Deslizamos trôpegos para o centro da pista de mãos ao alto e saltando com a massa, querendo alcançar os raios laser que cruzam por cima de nossas cabeças. Há três décadas daquela noite a garganta aperta. A vontade de dançar toma conta do meu corpo atravessado pela vida. A música é a mesma, que penetra meus sentidos por caminhos desconexos levando diretamente ao centro do meu universo. Ela desperta o garoto adormecido e o convida a voltar a dançar.

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