Coronadays 05.07.2020

🇧🇷 Tenho contado para bem poucas pessoas que não estou mais em Curitiba. No começo estava com um pouco de vergonha de ter escapado da insanidade e não queria parecer contar vantagem de estar num lugar onde a pandemia foi controlada. Mas a resposta dos que sabem têm sido boa, estão felizes de me ver aqui e de ver as imagens de uma cidade que está voltando ao normal.

Já faz uma semana que saí de Curitiba e parece que foi em uma outra vida. Aos poucos, o medo que senti de pegar o vírus no caminho, de ser barrado ao chegar aqui, de ver um mundo estranho, foi se dissipando. A vida em Paris, ao menos na superfície, está igual às outras vezes em que estive aqui. As ruas estão cheias, os restaurantes e lojas também. Há filas para entrar nas lojas de luxo do Champs-Elysées. Ontem, pleno sábado à tarde, peguei o metrô lotado para ver a Torre Eiffel. Aquela área no Trocadéro, bem diante da torre, estava cheia de gente passeando, ouvindo música, encontrando amigos.

O que não se vê são as filas de turistas, as malas de rodinhas dos hóspedes de Airbnb. Os hotéis cinco estrelas estão fechados. A Monalisa deve estar deprimida (ou aliviada), apesar de que amanhã, dia 6 de julho, o Louvre reabre as portas. Os planos de viagem para o verão também serão restritos à França. Há poucos voos, poucas conexões. A tendência é viajar de carro para poder voltar para casa se as coisas mudarem de uma hora para a outra.

O uso da máscara também está causando confusão por aqui. Agora, para caminhar pelas ruas, não é preciso usá-las. Para entrar nas lojas e no metrô, é obrigatório. Contudo, ontem vi pessoas no meu vagão que não estavam nem aí e ninguém as xingou ou deu piti. Nos restaurantes, os garçons as usam, mas quem está sentado não. Boa parte dos clientes agora sentam-se em mesas nas calçadas. Paris se transformou em uma metrópole mediterrânea. Pouco a pouco as máscaras vão ficando em casa. Já tem bancas de jornal dando descontos nas caixas de 50, liquidação de fim de estoque.

Pelo jeito as pessoas cansaram de se preocupar e estão aproveitando as liberdades reconquistadas. Foi muita notícia ruim concentrada em tão pouco tempo. Foram 56 dias trancafiados em casa. A quarentena aqui foi muito mais parecida com a de Buenos Aires do que com a de Curitiba. Sair de casa, só para ir ao mercado, levar o cachorro para fazer xixi ou exercitar-se a não mais de um quilômetro de casa, e por no máximo uma hora.

Ao mesmo tempo, a tal história de que a vida jamais seria como anteriormente, que durante a quarentena vislumbramos um novo mundo, infelizmente, é balela. Claro que pode haver uma nuvem negra escondida no horizonte, trazendo uma crise financeira e econômica sem precedentes, desemprego e agitação social. Ninguém sabe. Mas enquanto nada disso acontece, a vida não está nada diferente do verão do ano passado, apenas com máscaras, álcool gel e viseiras de acrílico aqui e ali.

O que um dono de restaurante me falou é que as contas estão bem apertadas. Se não houver movimento durante o mês de agosto, que é quando os parisienses emigram para o interior ou para o exterior (e nesse ano não haverá os americanos, chineses e brasileiros para repor o movimento), vai ser difícil continuar. Tudo está funcionando “one day at a time”.

Sinto estar no futuro, afinal, daqui alguns meses esperamos que o Brasil esteja voltando ao normal. A primavera vai chegar, o nível da pandemia vai baixar e teremos uma situação mais sustentável (no plano sanitário, ao menos), quando será possível voltar à academia, ao shopping, ao escritório e ao parque. As fronteiras vão demorar um pouco mais para abrir. A desconfiança por aqui é enorme. Não vejo argentinos ou italianos de braços abertos aos brasileiros depois de tanto sacrifício para controlar o vírus.

Apesar das notícias de que a Europa está reabrindo para o mundo, ainda há dezenas de regras para ir de um lugar ao outro. Tem países que ainda estão fechados, como a Finlândia e a Noruega. Para ir à Dinamarca, é preciso reservar hotel por 6 noites. Para entrar na Holanda também é preciso ter uma reserva de hotel. A Grécia faz teste na metade dos passageiros que desembarcam em Atenas. Se der positivo, o turista é levado para um acampamento do governo por 14 dias. Eu ainda tenho mais 7 dias de confinamento na França antes de poder cruzar uma fronteira. Claro que não reclamo, já que consegui fazer o teste na terça passada e deu negativo. E a França é bem grande, não é mesmo. Bem maior do que meu apartamento em Curitiba, ou a fazenda.

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Todo o espaço de que preciso com todo o acolhimento do meu amigo Alan.

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