Coronadays 14.06.2020

🇧🇷 Hoje voltamos ao alerta laranja. Ao ver curvas e gráficos caminhando sempre para cima, nada mais natural. O novo normal será marcado por cores. Nossa vida alternar-se-á entre dias amarelos, laranjas e vermelhos. Dias verdes virão somente com a descoberta de uma vacina. Já me acostumei com a ideia de passar 2020 em casa. Tenho sorte de ter esse privilégio e o agradeço ao Universo. Aqui, tenho mil distrações e tarefas. Os dias voam, apesar de serem sempre o mesmo dia. Estamos todos reféns dos dias da marmota, trabalhando de pantufas, fundindo o almoço com o jantar, o feriado com as férias, as lives com as séries. Haja banda larga para dar conta da rotina.

Ontem acordei me sentindo mal. Dos 7 ou 8 sintomas de covid-19 eu tinha uns 4. Achei que tinha chegado a minha hora. Fui atrás do cartão do seguro saúde e fiz um plano de como me alimentar em isolamento caso estivesse contaminado. Consegui marcar um teste rápido de farmácia para o meio da tarde. Teste negativo, ufa. Voltei para casa e dormi 4 horas no sofá. Acho que os sintomas eram de cansaço, exaustão, angústia. Tenho tido sonhos vívidos todas as noites. Não são sonhos bons. Acordo tentando encontrar um sentido às pias com água preta, aos chuveiros entupidos, às pessoas estranhas que vejo, às salas de espelhos e a outros lugares bizarros para onde me leva o meu inconsciente.

Um dos pontos altos da quarentena são aulas de escrita, às quartas-feiras. São encontros incríveis, para destravar as letras e desembaraçar os projetos que estão na gaveta. A lição de casa da semana passada foi revisitar os cadernos de anotações, olhar para todo o material que já criei aqui e ali e tentar dar um ressignificado para tudo. Será que sai um livro? Descobri que sou escritor há anos, pois não encontrei alguns, mas 10 cadernos e um blog cheios de escritos, pensamentos, revelações e cartas. Sim, até em cadernos eu escrevia cartas, que não mandei para os destinatários para não ter que arrancar as páginas. Fiz de propósito para encontrá-las em busca de lembranças. Algumas mandei ontem mesmo, com alguns anos de atraso, pelo WhatsApp.

Chafurdar nas memórias tem o seu custo emocional. Talvez venham daí os meus 4 sintomas de covid-19. Ao mesmo tempo vejo a riqueza de material que fui coletando. Deixei pegadas ao longo do tempo justamente para hoje, nestes dias de ressignificação da vida e dos valores, estar cara a cara com elas. Agora preciso olhar para o que separei e dar um propósito para tudo, criar um projeto, escrever um livro ou seguir com os posts aqui no TravelVince, mas com mais caldo. Me aguarde.

Outro exercício que tivemos no curso foi escolher um objeto e passar a semana pensando nele. Em seguida criamos um texto curto, de um parágrafo, dando o caminho das teias e emaranhados que construímos ao redor do tal objeto. Escolhi um bule de chá e esse é o texto que saiu:

“O frio me transporta às páginas de Dr Jivago e vejo um samovar fumegante no vagão a caminho de Vladivostok. Alguém lê “Alice no País das Maravilhas” enquanto um atendente verte água quente em uma xícara de porcelana chinesa. As folhas em infusão vêm do Ceilão, as mesmas que ao mar foram em Boston e que aos Bragança a difusão agradecem. Seguro a asa delicadamente, o dedo mindinho apontando para cima, sem querer. As notas são de matchá, que nenhuma digna geisha serviria daquela maneira. Nem xamãs, que sopram o ayahuasca direto no cálice. Influencers tampouco, pois postam copos de bubble tea e canudos plásticos grossos, tão fora de moda. Os sábios recomendam boldo para o estômago e camomila para acalmar. Escuto o apito da chaleira e nem cinco horas são, mas com os nervos à flor da pele, neste dia em que até o céu se acinzentou, só me resta um mergulho nas brumas de um bule de chá.”

Image from mozaico.com

Outro percurso literário delicioso destes últimos tempos tem sido escutar um podcast chamado Peixe Voador. Nele, Patrícia Palumbo, do Vozes do Brasil, lê textos, poesias, coloca músicas, conta histórias e nos faz sentirmos parte de algo maior. Cada episódio é uma viagem à criatividade das letras, das pessoas talentosas, dos pensadores, dos críticos ao sistema. Adoro e recomendo.

Um dos poemas lidos por Patrícia foi uma tradução que Waly Salomão fez de Walt Whitman para um livro de poesia. Nele, o narrador conta que o melhor de uma visita a uma cidade foi um homem que ele lá encontrou e as experiências que juntos vivenciaram. Me lembrei de várias ocasiões em que isso aconteceu comigo. De casos fugazes de amor que tive com homens que me mostraram suas cidades na garupa de uma Vespa, que me convidaram para jantar com amigos, que fizeram café da manhã e que voaram meio mundo para se encontrar comigo outra vez. O amor entre dois homens também me lembra um conto de Caio Fernando Abreu, que li num trem para Genebra e chorei sozinho, causando grande desconforto para a senhora à minha frente.

Tenho tantas aventuras para contar, tantos lugares por onde passei e gente que conheci. Me surpreendo ao ler nos cadernos do passado histórias das quais nem eu me lembrava mais. Por isso acho tão difícil jogar fora minhas coleções de bilhetes, cartões de embarque, chaves de hotel, entradas de museu, ingressos de teatros e cinemas. Cada item é um fio que me liga a uma experiência que tive e que deixei ali para ser revisitada hoje. Ao lembrar delas, me vem uma sensação de grandiloquência pois foram países, continentes, grupos de gente que já passaram pela minha vida. Mas deixe-me destilar melhor todo o material que revi na lição do curso para poder contar melhor cada história. Até breve.

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