Volta atrás

🇧🇷 Há dias que José sofria com a falta de resposta. A cada manhã, a desilusão com a caixa de correspondências vazia mergulhava-o em pura melancolia. Pensava nela ao ver as ondas do mar e as buganvílias em flor. Imaginava que ela estaria escutando as mesmas canções da Rádio Capital depois do noticiário das oito. Só não compreendia porque ainda não tinha respondido à sua missiva apaixonada. Ela que buscava um amante dócil e culto, alguém com quem pudesse compartilhar leituras e caminhadas pela orla. José em pessoa. Entregou-se de coração ao ver o anúncio na seção dos classificados amorosos da gazeta. Ela, morena de um metro e setenta, amante dos livros e das viagens, que buscava um parceiro para acompanhá-la no outono da vida.

Foi seu melhor amigo quem sugeriu a José buscar companhia através dos classificados. Até então vivia tranquilamente sua dócil vida de funcionário público aposentado e viúvo. Sentia-se satisfeito com a vida, mas dizia que poderia ir-se alegremente no próximo surto de gripe. Já tinha vivido o bastante e era como se pequenas asas começassem a brotar aos poucos em suas costas frágeis. O amigo ficou preocupado. Achou José depressivo. Nada melhor do que uma companheira para fazer os olhos do amigo brilharem novamente. José acatou. Só para satisfazer o amigo. Ao passar pela banca de revistas da praça, comprou os classificados. Entre massagistas e videntes, encontrou os anúncios do coração. Achou-os de mau gosto, alguns desesperados. Até que aquele, o menor de todos, quase no pé da página, chamou a sua atenção. Juntou as palavras em sonhos. Viu-se de braços dados com ela. Imaginou os livros que leriam juntos e permitiu-se até mesmo acreditar que poderiam dar muitas risadas. Apaixonou-se pela ideia dela. Mas agora que uma resposta não vinha, sentia-se, a cada dia de silêncio, mais e mais rejeitado, magoado, tratado como um velho inútil. Doía como se tivessem de veras vivido tudo aquilo.

Cheio de angústia, voltou à agência dos correios e pediu a carta de volta. O garoto do guichê devolveu os cinco cruzeiros do José e o envelope bege, sem esquecer de descarimbar e retirar o selo. José retornou para casa, sentou-se na escrivaninha e abriu o envelope deslambendo a cola nas bordas. Tirou dele a folha única, dobrada cuidadosamente e aspergida com colônia, que continha todas as declarações de amor que jamais tinha feito a alguém. Foi passando a caneta por cima das letras. A tinta preta voltava para o cartucho aos poucos. Primeiro a assinatura, o beijo e o ps. Em seguida subiu pelas linhas recolhendo palavra por palavra, pontos e vírgulas. Desescrevia ao mesmo tempo em que os desejos eram desimaginados. O amor virava desamor. 

Quando a folha finalmente ficou limpa, depois de recolher as saudações e a data, voltou para o bloco de notas. A caneta foi fechada com a tampa de rosquear. Novamente cheia de tinta, voltou a esperar uma nova oportunidade de ser útil a José. Redobrou as páginas do jornal, juntou os diferentes cadernos e com ele debaixo do braço, voltou à banca de revistas. Entregou-o ao seu Arnaldo, que devolveu outros cinco cruzeiros para José, que sem sonhos ou expectativas de um novo amor, nem com angústias da falta de uma resposta às suas declarações de amor, voltou a viver mansamente como um funcionário público aposentado e viúvo.

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