Coronadays 25.05.2020

Museu Oscar Niemeyer, ou Museu do Olho, já foi chamado de Novo Museu. O vão livre é de 1967, o olho veio em 2002. Cartão-postal da cidade e lugar de incríveis exposições. O Parcão enche de curitibanos e seus cães. O bosque do Papa fica logo ali, mata adentro, beirando o Rio Belém.

🇧🇷 Dos hábitos que desenvolvi ultimamente, o de que mais gosto é de explorar Curitiba a pé. Sempre fui um passeador, um flanador, um caminhante. Contudo, reservava esse hábito para quando estava longe de casa. Gosto tanto de viajar porque é quando me permito ter dias inteiros a caminhar sem rumo por cidades diferentes. Já não vou tanto a museus ou pontos de interesse. Me interesso mais em passar por eles a caminho de lugar nenhum. Traço uma rota imaginário que sigo de cabeça, sem mapa, sem gps e, principalmente, sem pressa. Sei me guiar pelo sol. Quando canso, pego um metrô ou ônibus e volto para casa (ou hotel).

Praça 29 de Março, dia do aniversário de Curitiba. Os murais de Poty contam um pouco da história da cidade. Já parou pra prestar atenção? Aos domingos tem feira livre. Outra curiosidade: Poty nasceu no dia 29 de Março!

Para minha surpresa, descobri que tenho o mesmo prazer por aqui. Para espairecer nesta quarentena sem fim, saio de casa com um destino pré-determinado, geralmente a casa de alguém (para encontros na calçada) ou um dos terminais de ônibus, pois as canaletas são rotas perfeitas, sem gente por perto. Nos primeiros dias fui munido de podcasts para me distrair ao longo do percurso. Agora vou sem distrações, pois a distração principal está exatamente nos contornos das ruas, na variedade de árvores, na arquitetura das casas, na flora dos terrenos baldios. Curitiba está cheia de palmeiras, bananeiras, jardins secretos, paredões de buganvílias e araucárias.

A ideia surgiu da vontade que tenho de fazer uma longa viagem a pé. Seria um preparo para o dia em que as fronteiras abrirem. Não precisa ser uma caminhada famosa como a de Santiago, nem exótica como os vales do Butão ou da Suíça. Enquanto o dia não chega, vivo na expectativa, nos planos. Um dia é a costa sul da Bahia. Noutro é algum parque nacional de Hokkaido, no Japão. Tem coisa melhor do que sonhar com viagens? Por enquanto estou incrementando o percurso de cinco em cinco quilômetros, que dá cerca de uma hora extra por vez. Um primo meu já veio de Ponta Grossa até Curitiba caminhando. São 120 quilômetros. Levou três dias. Deve ter visto muito mais do que eu nas centenas de vezes que fiz o mesmo trajeto de carro, tanto de ida, quanto de volta.

O carro, a pressa, a rotina e o medo nos sequestram esse prazer tão simples que é de caminhar e tomar posse do território. A rua é de todos, na rua nos encontramos. Agora que vou vestido de máscara anti-vírus, há troca de olhares simpáticos, boas tardes abafados pelo tecido, cumplicidade de quem é livre para flanar. Tem gente que empina pipa na praça, outros aprendem a andar de skate. Descobri que certos bairros ficam mais perto do que eu imaginava. Não tenho medo. Caminho sem a carteira, sem relógio, sem celular. Não tenho nada precioso que não possa ser levado, só a vida, mas essa eu não tenho como deixar guardada em casa, senão apodrece.

Por coincidências do destino, me deparei com o livro “O Homem que Passeia”, do ilustrador japonês Jiro Taniguchi. Nele, um senhor caminha por sua cidade. Ele observa as nuvens, os pássaros, descobre praças, se encontra com gente ou simplesmente viaja para dentro de si. Sim, uma das façanhas de caminhar é que ao mesmo tempo em que nos abrimos para observar o mundo a nosso redor, mergulhamos os sentidos para o universo interior também. Um pensamento, uma sensação, uma conversa consigo mesmo, são presentes que ganhamos na caminhada. Daria até para chamá-las de meditativas. Volto para casa cansado, mas renovado e cheio de ideias. Tenho até mesmo um caderno imaginário onde tento anotar tudo ao longo do percurso.

Lembro de quando estava editando um dos vários guias de viagem de Paris que lançamos pela Editora Pulp. Era o “Paris pra você”, da blogueira influencer paulistana Lelê Saddi. Uma das coisas que ela incluiu no guia foram depoimentos de amigas e amigos com dicas do que fazer na cidade. Não teve uma pessoa que não tenha dito: caminhar, caminhar livremente pelas ruas de Paris. Em outro guia, o “Minha Nova York”, de Didi Wagner, uma das #didicas era bater perna. Eu mesmo incluí caminhadas nos dois guias que escrevi, no “Manual de Viagem” e no “Paris para amar Paris”. Agora vejo que dá para ser um turista em qualquer lugar. E que flanar por Curitiba é tão prazeroso quanto por Berlim. O personagem do livro do Jiro Taniguchi desce do trem sempre uma ou duas paradas antes do ponto para caminhar o resto do trajeto até o trabalho e sempre se surpreende.

Escrever sobre Taniguchi e caminhadas me fez lembrar do Murakami, um escritor japonês, e das suas corridas. Ele escreveu um livro chamado “Do que eu falo quando falo de corrida”, que não é exatamente a mesma coisa, mas é algo parecido. São histórias de divagações enquanto estamos indo de A para B. No caso de Murakami, enquanto ele corre suas maratonas. E como uma coisa leva à outra, lembrei que há um ano estava em Istambul. Já escrevi um post a respeito dos meus dias por lá, que foram em suma, dias de caminhadas. Conquistei uma intimidade com a cidade que jamais teria não fossem os vários quilômetros a pé ladeiras acima, ladeiras abaixo, tanto do lado europeu quanto do lado asiático. Em suma, sigo caminhando, com vírus, sem vírus, aqui ou lá.

Praça 19 de Dezembro, dia da emancipação política do Paraná. Fazíamos parte de São Paulo até então. Ali ficava a Escola Alemã, onde estudou Erbo Stenzel, que depois desenhou o Homem Nu. Poty cuidou o painel.

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