Enquanto o 98 não chega

?? O 98 estava a caminho. Deve ser aquele parado, ali no semáforo. O painel eletrônico informa: 98, chegada iminente. Espera de pé, com as sacolas do supermercado enroladas nos punhos. A garoa fina recomeça. Não há lugar debaixo do ponto. Avalia se vale a pena tirar o guarda-chuva da mochila. Iminência, semáforo ainda no vermelho, melhor não. Com a mão direita dentro do bolso, aperta o passe com firmeza. Sente-se ansioso nesses segundos à espera do ônibus chegar. Tem receio de que o passe não funcione. Medo de não conseguir se comunicar com o motorista. De ter que se explicar. Precisa ensaiar na cabeça as frases antes de dizê-las naquele idioma. Não aceitam mais dinheiro. Agora é tudo digital. Não gosta do digital. Tem vergonha do seu sotaque carregado. Imagina a cena. O motorista dizendo que ele tem que descer e as pessoas sem paciência olhando para ele com raiva. Já viu isso. Olhou novamente para o painel eletrônico. 98, chegada iminente; 120, dois minutos. Pensou que cada ônibus tem um sensor para medir o tempo até o ponto. Quanta precisão. Mas o que seria uma iminência então? Segundos? Minutos? Porque será que o semáforo não abria?

Sente o cabelo molhado e as roupas umedecidas, como tudo naquela cidade. Sente saudades de casa. Não da casa onde mora, mas da casa onde cresceu. Lá faz calor todos os dias, a chuva tem hora marcada no fim da tarde e nunca ninguém o xingou de estrangeiro sacana. Não se sente um estrangeiro sacana. Estrangeiro sim. Sacana, será? Mas fica triste só de pensar em ser xingado assim novamente. Apesar de que hoje em dia xingam todo mundo de tudo. Inclusive mandam as pessoas voltarem para casa, com raiva. Ele tenta se passar despercebido, sem cometer gafes e sem abrir a boca.

Viu a luz verde do semáforo acender e o motorista acelerar. Juntou-se à fila. Sem mais nem menos, o ônibus passou direto pelo ponto, sem parar. Era o 98. Uma senhora que vestia uma capa de chuva transparente, em forma capuz, olhou para ele e falou: “Esses motoristas estrangeiros sacanas deveriam voltar para o país deles. Onde já se viu?”. Ele concordou com a cabeça, automaticamente. Olhou para o painel. O próximo estava a caminho.

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