Arábia Saudita para turistas

Vinha comendo a Arábia Saudita pelas bordas. Há anos. Tal como uma pizza proibida. Era impossível ganhar um visto de turista e não sou muçulmano para poder fazer a peregrinação para Meca. Então não havia jeito. Ao longo de várias viagens e experiências, visitei todos os países ao redor, do Iêmen ao Bahrein (menos o Iraque, que é outro lugar na minha lista). Já estava enjoando de tanta massa, queria ir logo ao recheio. Durante os três anos em que fui comissário da Emirates, era o único que ficava animado com os voos de bate-e-volta para Riad, Jidá e Damão. Fazia questão de, em cada aeroporto, colocar a cabeça para fora da porta do avião e dar uma fungada bem profunda, para levar um pouquinho de Arábia Saudita dentro de mim.

O tempo foi passando e a História (essa com h maiúsculo) colocou um príncipe louco no poder, que, para gerar empregos e colocar um país complexo em rota do século 21, decidiu abrir as fronteiras, de um dia para o outro. Recebi a informação em um alerta no celular: Arábia Saudita aprova a concessão de visto eletrônico para estrangeiros. Não precisava nem ir a um consulado, era só preencher online e depois dirigir-me até a Península Arábica. Que fácil. Agora poderia comer todas as fatias da tal pizza.

Desembarquei em Jidá (Jeddah) no dia 31.12.2019. Esse porto no Mar Vermelho sempre foi a cidade mais cosmopolita da região. Mercadores, comerciantes, mascates e gente de vários cantos do mundo sempre passaram por ali. A cidade antiga, chamada de Al Balad, tem várias casas feitas com coral do mar. Por isso não tem mais coral no mar. A cidade é plana, enorme e é por onde entram os milhões de peregrinos que vão dar as voltas na Kaaba, em Meca. Eu estava liberado para ir a qualquer lugar do país, menos para Meca e Medina. Fiquei três dias em Jidá, quando poderia ter ficado só um. Not very impressed. Lembra Dubai nos anos 2000, antes de Dubai ser Dubai. Mas pelo menos podia fungar à vontade e ter toda a Arábia Saudita que queria dentro de mim. Caminhei pela Corniche, um enorme calçadão no Mar Vermelho, fui a Al Balad, visitei alguns shoppings e fui me aclimatando ao país.

A primeira coisa que me chamou a atenção foram as mulheres dirigindo carros, coisa nova por lá. Também as duas portas separadas para entrar nos restaurantes, uma para solteiros (homens) e outra para famílias. No shopping, na hora de rezar, todas as lojas fecham. Mas ninguém fica rezando. Tem cinemas também, que assim como mulheres no volante, também são novidade. O clima é bem à la Dubai, com gente de todo o tipo passeando, homens de branco, mulheres de preto, com cara coberta, com cara descoberta. Fui paquerado por habibas e habibos. A impressão que dá é que todo mundo tem menos de 30 anos.

De Jidá peguei um voo da Saudia (não confundir com Sadia, que também tem por lá, mas só nos supermercados) para Tabuk, quase na fronteira com a Jordânia. Fazia um frio louco em Tabuk e a cidade é “do interior” até para os sauditas. Mas ela fica estrategicamente posicionada entre o Golfo de Aqaba e as ruínas nabateias de Al Ula (os Nabateus são aquele povo que construiu Petra), dois lugares que eu fazia questão de conhecer. Aluguei um carro e um amigo alemão que vive em Dubai se juntou a mim. Fizemos mais de 1.000 quilômetros pelas estradas sauditas, atravessando cânions e desertos. Fizemos questão de cantar pela estrada todas as músicas da Madonna na hora em que o povo parava no acostamento para rezar, tipo vingança do pipoqueiro.

Al Ula é o grande ponto turístico da Arábia Saudita, com várias ruínas dos Nabateus, esculpidas em pedra em um enorme sítio arqueológico. Tanto o que foi esculpido pelos homens, quanto o que foi esculpido pela Natureza, são de tirar o fôlego. Dá para ver que aconteceu muita coisa por ali ao longo de milênios. De queda de asteroides, explosões vulcânicas, terremotos, mar que não é mais mar e outras curiosidades geológicas. E tudo estava mais calmo quando o primeiro beduíno passou por ali. Talvez foram os nossos ancestrais que saíram da Etiópia e foram para a Europa e Ásia os primeiros a ver tudo aquilo. Os vales são recheados de tamareiras e há um teatro feito de espelhos que infelizmente eu não consegui visitar por falta de tempo.

O Golfo de Aqaba eu quis visitar só para molhar os pés numa partezinha do Mar Vermelho e ver a península do Sinai ali do outro lado. Eu comemorei meu aniversário de 23 anos num hotel daquele lado e lembro de sonhar em estar “na grama mais verde do vizinho” um dia. Dizem os prospectos e outdoors do projeto Vision 2030, o plano do príncipe atual, aquele que mandou matar o jornalista no consulado em Istambul e que hackeou o celular do dono da Amazon, que em 10 anos vai haver uma mini-Dubai por ali. Engraçado que todo mundo quer ser uma Dubai um uma Miami, né? Que falta de criatividade. Vi no Google até umas fotos de uns arranha-céus do complexo de Neom, que “in loco” não existem. Então pense duas vezes antes de comprar ações de fundos imobiliários de Neom, o “acelerador do progresso humano” como está no Instagram. Mas, contudo, no entanto, entretanto, a exuberância natural do lugar é indiscutível. Talvez o melhor seja deixar tudo como Alá fez e proteger do progresso dubaificador.Depois de saracotear morro acima, estrada afora e Arábia adentro, pegamos outro voo da Saudia para a capital Riad (Riyadh), o epicentro da vida saudita. Foi ali que Ibn Al Saud tomou o poder local e foi conquistando a península. É uma cidade gigantesca em formas poligonais. São quadrados e retângulos de desenvolvimento, sendo o mais vertical numa linha central, com a Kingdom Tower no meio, marcando o progresso local. Riad não é uma cidade feia nem bonita e chega a ser interessante. Caminhar é um desafio, ainda mais na rua do meu hotel, onde estão as obras do metrô. Conseguimos visitar muita coisa, do forte onde Al Saud viveu ao Museu Nacional, com toda a história do país. Subimos no observatório da Kingdom Centre e caminhamos pelo KAFD (King Abdullah Financial District), um centro de negócios para o mercado financeiro, comunicações e startups que está ficando pronto aos poucos. Foi ali que levei mais de uma hora para conseguir atravessar a rua tentando ir até um shopping para almoçar. Não consegui chegar, me perdendo entre os viadutos e cercas anti-pedestre. Por sorte encontrei wifi para chamar um Uber.

O que eu mais gostei da Arábia Saudita foi de ver que é um país normal, com gente simpática, curiosa e que está correndo atrás do tempo para liberalizar os costumes e se desenvolver. Não há só príncipes e riqueza. Tem bastante gente classe média, alguns bolsões de pobreza e muitos jovens. Foi mais fácil ter contato com os locais do que nos Emirados Árabes, afinal, os sauditas normais (que não carregam um sobrenome real) tem que trabalhar. Ao contrário dos Emirados, onde 80% ou mais da população é estrangeira, na Arábia Saudita quem trabalha nos restaurantes, hotéis, táxis, lojas e supermercados são sauditas. A maioria não dá nem bola para um estrangeiro curioso, tanto que fui aonde quis. As pessoas são bem normais. Dão risada, saem com os amigos, levam os filhos na escola, brigam no trânsito, comem hambúrguer e gostam de ofertas e descontos. A vida é prosaica, até na Arábia Saudita, o reino proibido, que agora abre suas portas para turistas de todo o mundo.

Ps: poderia escrever muito ainda sobre toda a questão religiosa e política da Arábia Saudita. Li dois livros ótimos antes de ir*, conversei com gente, cansei de ler artigos a respeito da economia local, da história do petróleo, do conflito entre xiitas e sunitas, do rolo com o Irã. Mas preferi ficar no relato da viagem. Caso queira discutir sobre esses assuntos, aceito o convite para um café.

*On Saudi Arabia, de Karen Elliott House e L’Arabie des Saoud, de Malise Ruthven.

Pps: tem babado por lá também, caso esteja curioso/a

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